Palavras em familia - prof. Lauro Dick

Blog direcionado a questoes de assuntos biblicos, literários, linguisticos e outros(ética,astrologia,numerologia) abordados de forma didática.

8 de December de 2009

Vigésimo quinto domingo do tempo comum

Pré-texto Visitando, dia 30 de agosto de 2009, a Expointer, de Esteio, RS, Exposição [agroindustrial] Internacional, eu me perguntava onde estaria Deus nesse fervedouro humano, em lenta circulação por estandes, restaurantes, bancos, gigantescas máquinas do agronegócio.exposição de ovinos, eqüinos, ovinos [suínos, não, devido à letal gripe A ou H1N1]. Avicultura, floricultura, artesanatos mil, desfiles, rodeios, bandas... Ocorreu-me o que havia lido em Haight (2003), no trem, no trajeto até lá: "O Deus de Israel não é um Deus da natureza, e sim da história. Deus é aquele que atua na história de maneira salvífica, e não o objeto de um culto da fertilidade" (p. 120). Prefiro vê-lo das duas maneiras. Naturalmente, nas pessoas, nos animais, nas orquídeas, nos tapes te couro, na tecnologia, na música regionalista... Histórica e socialmente, nas classes sociais representadas no evento, na surda competição existente, no desenvolvimento, real ou fictício, no preço de uma garrafa de água mineral, bem acima do que seria justo. Caio, assim, na liturgia da palavra deste domingo, menos voltada para o natural do que para o histórico-social. Em ambas as esferas, há desequilíbrios causados pela inteferência abusiva da humanidade tanto no ecossistema, na cultura, na indústria quanto nas micro e nas macrorrelações humanas. Dessa forma, a imagem divina sai arranhada e desfigurada. É o que mostram as leituras deste vigésimo quinto domingo: "Fiquemos de tocaia contra o justo, pois nos é incômodo" (Sabedoria, 2: 12), combinam entre si os ímpios. O salmo 53 nota que "alguns estranhos se levantam contra mim" e perseguem-me mortalmente" (53: 5). Tiago observa que "onde há inveja e rivalidade, aí há desordem e toda espécie de maldade" (3: 16). Em Marcos, Cristo prenuncia, referindo-se a si mesmo: "Este Homem vai ser entregue em mãos de homens, que o matarão; depois de morrer, ao final de três dias ressuscitará" (9: 31). Em suma, pelas amostras aduzidas, reina no ar um clima conturbado: Fiquemos de tocaia contra o justo; Alguns estranhos se levantam contra mim; Há inveja e rivalidade; Este homem vai ser entregue. Nem se diga que não é essa a realidade que os cristãos e os não-cristãos continuamente vivem. Contexto O livro da Sabedoria é um dos gêneros literários bíblicos do Antigo Testamento [tipos de literatura distintos entre si pela forma, pelo conteúdo, pela estrutura, podendoi ser ou mais líricos, ou mais narrativos, ou mais didáticos, ou mais sentenciosos...]. Pertence às composições poéticos e sapienciais e se enquadra no bloco do Cântico dos cânticos, do Coélet ou Eclesiastes, de , dos Provérbios, dos Salmos, do Sirácida ou Eclesiástico. Judeus e protestantes excluem Sabedoria do cânone, isto é, não reconhecem ser ele inspirado, nem o propõe aos fiéis como palavra de Deus. Schökel (2006, p. 1524) anota que o livro em questão é o último dos veterotestamentários e consiste num tratado de teologia política e, além disso, é anônimo, embora atribuído a Salomão, do tempo de Cristo ou de alguns decênios posteriores [em torno de 50 dC]. Consta de 19 capítulos, subdivisíveis em duas partes: 1: 1 a 8: 16 [em cujo começo há uma exaltação notável aos governantes: "Amais a justiça, vós que governais a terra; / pensai corretamente do Senhor e buscai-o de coração inteiro", 1: 1] e 8: 17 a 19: 22, em que, no capítulo 9, Salomão suplica: "Deus de meus pais, Senhor de misericórdia, / que tudo criaste com tua palavra / e formaste o homem sabiamente, / [...] dá-me a sabedoria entronizada junto a ti" ((: 1, 2 e 4). Sabedoria vem a ser, basicamente, (1) inteligência, habilidade e bom senso, condimentados com esperteza e astúcia; (2) personificação do ser e agir divinos, personificados em Cristo e nos seguidores dele: "Nele [em Cristo], se encerram todos os tesouros do saber e do conhecimento (Colossenses, 2: 3); "Deus escolheu os loucos do mundo para humilhar os sábios, Deus escolheu os fracos do mundo para humilhar os fortes" (1Coríntios, 1: 27). A leitura deste domingo, 2: 12 e 17 a 20, expõe o pensamento dos ímpios ou estultos, oposto ao dos sábios, e o faz em termos de oposição, desafio e deboche. O salmo 53 é uma súplica individual, descrevendo os males do mundo.
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Vigésimo quarto domingo do tempo comum

Pré-texto

A liturgia da palavra deste vigésimo quarto domingo do tempo comum é de Isaías (50: 1 a 9), dos Salmos (114), de Tiago (2: 14 a 18) e de Marcos (8: 27 a 35). São leituras, a um primeiro sobrevôo, desencontradas. Em Isaías (50: 1 a 3), o Senhor desafia o povo a provar que lhes foi desleal, repudiando-lhes a mãe e vendendo-lhes os filhos. Há um corte, e, dos versículos 4 a 9 do mesmo capítulo, entoa-se o terceiro cântico do servo, um personagem plurissignificativo, com as acepções de vassalo de Deus, profeta, messias,/ ungido, perfumado, protetor, tonificante. No salmo 114, opõe-se Javé aos deuses pagãos, com ênfase naquele, que é “auxílio e escudo” (114: 9). Tiago pergunta “de que serve para alguém alegar que tem fé, se não tem obras” (2: 14). Em Marcos, Jesus indaga sobre “quem dizem os homens que eu sou” (8: 27), explica-lhes que deve padecer muito (8: 31), reprova Pedro de pensar de modo humano e “não segundo Deus” (8: 33) e assegura não haver outra maneira de segui-lo senão carregando cada um sua própria cruz (8: 34). Isto é: quatro mensagens aparentemente distintas. Quedemo-nos, porém, um pouco mais nelas, a ver se lhes descobrimos um fio condutor. Na primeira, Isaías, Deus se manifesta como libertador: “Minha mão é tão curta que não pode redimir? / Ou não tenho força para livrar?” (50: 2), e o servo se revela um seguidor fiel. Na segunda, salmo 114, “nosso Deus está nos céus / e fez tudo o que quis” (114: 3), e Israel confia nele: “Bendiremos ao Senhor, / agora e para sempre” (114: 18). Na terceira, Tiago, há uma pequena deriva: fé, sim, em Deus, mas concomitantemente, para além do seguimento [Isaías] e da confiança [salmo], obras concretas a favor dos irmãos que “andam seminus, sem sustento diário” (2: 15), bem ao estilo de Mateus, no juízo final: “Tive fome, tive sede, era migrande, estava nu...” (25: 35 e 36). Na quarta, Marcos, Pedro professa que Jesus é o Messias, e Jesus, coloca a condição: “Quem quiser seguir-me, negue a si mesmo, carregue sua cruz e me siga” (8: 34). Parece que, assim, fica esboçado o tema deste domingo: Deus, com seus dois respectivos corolários: fé e obras. Peço licença de, antes de transitar para o contexto, me deter em três pontos: Primeiramente, recordar que a celebração da Eucaristia se desdobra em dois momentos: “a liturgia da Palavra”, que compreende a proclamação e a escuta da Palavra de Deus” e “a liturgia eucarística, que compreende a apresentação do pão e do vinho, a anáfora [repetição de uma ou mais palavras, como as da consagração] e a comunhão” (Compêndio do catecismo da Igreja Católica, 2005, n.277. Ora, a palavra, mesmo a divina, é dinâmica. Sabe-o quem, no instituto de beleza, vê anunciado um corte de sombrancelhas, que são sobrancelhas, de supercilia ‘super + cílios’, que evoluiu para ‘sobre/ an + celhas’, contaminadas por sombra. Ou, no supermercado, lê Viríssimo, quando o normal seria Veríssimo, e o lingüista explica ter havido aí a elevação do e, de , para o e, de Vi, devido à tônica alta i, de ri. Ou, no dia-a-dia, se depara com adevogado, rítimo, duas epênteses fonológicas freqüentes em escribas de primeiras letras. Tá, nas Escrituras, o fenômeno é mais sutil, já que mais semântico. Existe, todavia, e como provoca discussões e dissensões interpretativas. Em segundo lugar – eis mais um aspecto a rememorar –, as fontes da oração são “a Palavra de Deus, que nos dá a ‘sublime ciência’/ o ‘superior conhecimento’ de Cristo (Filipenses, 3: 8), a Liturgia da Igreja, que anuncia, atualiza e comunica o mistério da salvação, as virtudes teologais [fé, esperança e caridade], as situações cotidianas: nelas podemos encontrar a palavra de Deus (op.cit., n.558). Terceiro: “O ato de fé é um ato humano, ou seja, um ato de inteligência do homem que [...] dá livremente o próprio consenso à vontade divina. Além disso, a fé é certa, porque fundada na Palavra de Deus, e operosa ‘pelo amor’/ ativada pelo amor’” (Gálatas, 5: 6) (Compêndio, n.28).. Dado esse esclarecimento pré-textual, passemos ao contexto.

Contexto

As leituras deste vigésimo quarto domingo do tempo comum levantam inicialmente, no seu todo, prévio às especificações, quatro questões: retórica, diálogo inter-religioso, fé e obras. Eloqüentemente, Isaías pergunta ao povo que se queixa de que Deus foi desleal à aliança feita com ele, como que repudiando a mãe e vendendo os filhos: “Onde está a ata de repúdio / com a qual despedi vossa mãe? / Ou a qual de meus credores vos vendi?” (5: 1). Em seguida, apela à demonstração do seu poder: “Vede: com um bramido seco o mar, transformo os rios em deserto” (50: 2) e à sua imaginação poética: “Eu visto o céu de luto e o cubro com pano de saco” (50: 2). Não há o menor vestígio dialógico no salmo: “Nosso Deus está nos céus / e fez tudo o que quis. / Seus ídolos são prata e ouro, / obra de mãos humanas” (114: 3 e 4). Hoje, contrariamente, preconiza-se uma troca profícua de idéias entre as religiões. Segundo Paulo, em Gálatas, 3 e Romanos, 3, “filhos de Abraão são os que têm ” (Gálatas, 3: 7) e, “prescindindo da lei/ Lei [das obras], revelou-se/ manifestou-se a justiça de Deus que salva pela fé em Jesus como Messias” (Romanos, 3: 21 e 22). Em contrapartida, Tiago indaga: “Meus irmãos, de que serve para alguém alegar que tem fé, se não tem obras?” (2: 14). As duas posições [fé x obras, ou melhor, fé x fé e obras] tensionaram durante séculos as Igrejas católica e protestante, tendo as duas chegado a acordo há não muito. O Compêndio do catecismo da Igreja Católica estabelece que o juízo particular é a “retribuição imediata” conferida a cada qual, após sua morte, de acordo com sua fé e suas obras” (2005, n.208). Na época em que a querela surgiu, no séc. XVI, Inácio de Loiola registrou, nos Exercícios espirituais que “o amor deve pôr-se mais em obras que em palavras” (n.230). Especifiquemos, agora, as leituras, uma a uma. Isaías (50: 1 a 9) é do segundo Isaías, séc. VII aC, no exílio babilônico. O profeta expõe uma demanda de Deus com o povo e, sem transição, introduz o terceiro cântico do servo, personagem misterioso, geralmente confundida com Jesus, que se faz presente em quatro poemas: Isaías, 41: 1 a 9; 49: 1 a 13; 50; 4 a 9; 52: 13 a 15. O salmo 114 é um hino à sabedoria divina: “Está nos céus / e fez tudo o que quis” (114: 13), e nós o bendizemos “agora e para sempre” (114: 18). Tiago (2: 14 a 18) aborda pragmaticamente o binômio fé e obras: “Alguém dirá: tu tens fé, eu tenho obras. Mostra-me tua fé, sem obras, e eu te mostrarei pelas obras a minha fé” (2: 18). Em Marcos (8: 27 a 35), Pedro professa sua fé no Messias, e Jesus, por sua vez, prediz a sua própria morte e ressurreição, censura Pedro e convida à renúncia de si mesmo.

Texto

Em Isaías, de 50: 1 a 3, o Senhor afirma que “por vossas culpas fostes vendidos, / por vossos crimes / vossa mãe foi repudiada” (50: 1) e se declara todo-poderoso. Na seqüência, de 50: 4 a 9), o servo de Javé = Jesus = “mediação da presença de Deus para o cristianismo” = “mediação da experiência de Deus na história” (Haight, em Jesus, símbolo de Deus, São Paulo: Paulinas, 2003, p. 30) tem “uma língua de iniciado, / para que saiba dizer ao abatido / uma palavra de alento” (50: 4), oferece o dorso aos que o espancam e as faces aos que lhe arrancam a barba (50: 2) – atitudes que lembram a flagelação de Jesus. Porém “o Senhor me ajuda” e “tenho perto o meu defensor” (50: 7 e 8). No salmo 114, contrasta-se o “Deus deles” (114: 2) com o “nosso Deus” (114: 3). Este “está nos céus / e fez tudo o que quis” (ibid.). Aquele se constitui de ídolos que “têm boca e não falam, / têm olhos e não vêem, / têm ouvidos e não ouvem, / têm nariz e não cheiram, / têm mãos e não tocam, / têm pés e não andam, / sua garganta não têm voz” (114: 5 a 7) – sete órgãos humanos, número indicativo de série completa. No Senhor, pelo contrário, confiam (1) os sacerdotes, na pessoa de Aarão, irmão de Moisés, primeiro sumo sacerdote da nação judaica, (2) os fiéis, (3) a casa de Israel. Em oposição a Isaías e ao salmo 114, em que Deus se impõe soberano, exigindo correspondência, em Tiago (2: 14 a 18), “a fé [em Deus], que não vem acompanhada de obras, está totalmente morta” (2: 17). Seria uma farsa alguém dispensar um irmão ou irmã: “Ide em paz, aquecidos e saciados” (2: 16). Se “não lhes dá para as necessidades corporais, de que serve?” (ibid.). Deus se identifica, neste passo com o próximo, como, aliás, no juízo final (Mateus, 25: 37 a 40).

Marcos (8: 27 a 35) é uma narrativa convetível no esquema narrativo clássico.

Situação inicial – Jesus, em plena vida pública, na região mais setentrional do seu ministério.

Fato desencadeador – “Quem dizem os homens que eu sou?” (8: 27).

Episódios subseqüentes – (1) Várias respostas à pergunta anterior: João Batista, Elias, um dos profetas; (2) Declaração de Pedro: “Tu és o Messias” (8: 29); (3) Admoestação aos apóstolos para não falarem disso; (4) Explicação de que “devia padecer muito” (8: 31); (5) Reprimenda de Pedro quando a “padecer muito”; (6) Reação de Jesus: “Retira-te, Satanás” (8: 33) – Satanás = Pedro, que não aceita a Paixão e só admite o triunfo messiânico.

Desenlace – “Quem quiser seguir-me, negue a si mesmo, carregue a sua cruz e me siga” (8: 34).

Pós-texto

As leituras deste vigésimo quarto domingo do tempo comum confluem para Deus, que, em Isaías, é justo (50: 1) e defensor (50: 8), no salmo 114, inspira confiança (114: 10), em Tiago, reclama fé e obras (2: 14); em Marcos, exige o reconhecimento de Jesus como Messias (8: 29) e a disposição de, para salvar sua vida, perdê-la por Jesus e pela boa notícia. Em outras palavras: “O mais importante: Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente, com todas as tuas forças. O segundo é: Amarás o próximo como a ti mesmo. Não há mandamento maior do que estes” (Marcos, 12: 29 a 31).
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21 de November de 2009

Vigésimo terceiro domingo do tempo comum

Pré-texto "Como criar um ambiente para a educação empreendedora?" - perguntaram a Jorge Gerdau, presidente do conselho de administração do Grupo que tem o nome dele. Resposta: "Esse procedimento tem dimensões culturais maiores. Religião, regimes autoritários, de direita e esquerda, não ajudam. Não sei se querem o empreendedor. A estruturas gostam de militantes obedientes que não pensam demais". Que organização encabeça o duo ou trio exemplificativo? A religão. Por quê? Porque as estruturas gostam de militantes que não pensam demais. Vale para o cristianismo e para o catolicismo, em particular? É claro que sim. As autoridades eclesiásticas adoram dogmas, catecismos, teologias, feitos por elas mesmas. Fechados em suas estreitezas e, não raramente, em seus obscurantismos. Por mais que apelem ao Espírito Santo e assegurem falar em nome do povo de Deus [nós todos, ovelhas mais ou menos tontas...]. Há, sim, quem, dócil e ovelhuno, prefira errar com a Igreja a acertar sozinho. Primeiro, o acerto vem sempre acompanhado. Segundo, o erro ou a meia-verdade, sobretudo quando impostos, são detestáveis. A propósito, Bento XVI, na Caritas in veritate, ‘Caridade na verdade' (2009, n.56): "A razão tem sempre necessidade de ser purificada pela fé. A religião, por sua vez, precisa sempre ser purificada pela razão". A que essa acre introdução? Entre 12 e 19 de agosto de 2009, fui levado a refletir sobre essas e semelhantes questões. Retomo-as. Empreendedorismo é um termo que ainda não encontrou assento nos dicionários de meu uso [Aurélio, Houaiss, Michaelis]. Empreender significa, ‘decidir realizar, resolver-se a praticar [ação difícil e trabalhosa], pôr em execução'. É da família de empresa, empresário, empresariado, empresarial e traz uma conotação de mais decisão, dificuldade [como quem não encontra a cama feita pela família ou pelo Estado], liberdade, globalização. Implica, além disso, justiça, bem comum, desenvolvimento do homem todo e de todos os homens, solidariedade, subsidiariedade, tais como enfatizados pela Caritas in veritate, e talvez menos presentes nos ditos empreendedores, razão possível da cutucada religiosa de Gerdau. Há também o fato de as crenças deleitarem-se com sinais maravilhosos [curas de cegos, surdos, mudos, coxos, paralíticos, leprosos, endemoninhados..., antes de a ciência descobrir doenças mais sofisticadas e sérias - ver evangelhos, Atos, 3, 5...], mais ou menos indiferentes à medicina. Aliás, por que hoje só pastores neopentecostais miraculam, em programas de tevê, somente mortos veneráveis a caminho da beatificação e da santificação operam curas inexplicáveis, tão-só realizam maravilhas certos santuários? Na semana que atrás citei, e isso tem a ver com a religiosidade institucionalizada, discorreu-se sobre a teoria das inteligências múltiplas, do psicólogo cognitivista Howard Gardner, segundo o qual há sete tipos de inteligência: lingüística, musical, lógico-matemática, corporal ou cinestésica, interpressoal e intrapessoal ou existencial [capaz de formular perguntas essenciais]. Penso que isso interfira na relação com Deus assim como na catequese, na dogmática, na espiritualidade. Nos comportamentalismos. Nas padronizações. No campo ainda do fenômeno religioso-cristão, duas televisões brasileiras se engalfinharam nesta segunda metade do mês de agosto, devido a uma denúncia do Ministério Público de São Paulo contra o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e outras nove pessoas, que teriam incidido nos crimes de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Zero Hora (Porto Alegre, 12 ago., p. 32) descreve o sistema supostamente fraudulento: (1) A Igreja Universal recolhe donativos junto aos fiéis; (2) o dinheiro, imune do fisco, é parcialmente repassado a duas empresas do Grupo; (3) estas remetem o bolo a paraísos fiscais de fora do país; (4) de lá, a dinheirama volta, em forma de empréstimo, a pessoas físicas da Igreja, que aplicam os recursos em templos, empresas, imóveis [casas, garagens], aeronaves, fora investirem em jornais, rádios, tevês. A Record, uma das compras milionárias da Universal, rechaça as acusações da concorrente, a Rede Globo: "O outro lado da Globo é exposto", "A queda do feudo e da audiência global e velhas práticas" (Correio do Povo, Porto Alegre, p. 10, 13 ago., 2009), "Record revela operações irregulares da Rede Globo", "Queda da audiência leva a concorrência a atacar" (op.cit., p. 21, 14 ago. 2009), "Bispo Edir Macedo rebate os ataques da Rede Globo" (op.cit., p. 15, 17 ago. 2009). Tem razão a manchete de capa da Veja de 19 de agosto de 2009: "Fé e dinheiro: uma combinação explosiva" - onze páginas da revista se ocupam com o assunto (p. 92 a 94). É esse de fato um material altamente inflamável, mormente quando se lê a Bíblia literalmente, como no neopentecostalismo. Três das quatro leituras bíblicas deste vigésimo terceiro domingo obrigam a uma interpretação figurada, sob pena de queda no ilusionismo e na magia: "Olhai o vosso Deus, que traz a desforra, / vem em pessoa, ele nos ressarcirá e salvará. / Os olhos do cego se desgrudarão, / os ouvidos do surdo se abrirão, / o coxo saltará como cervo, / a língua do mudo cantará, / porque brotou água no deserto, / torrentes na estepe, / a terra seca será um brejo, / a terra árida um manancial" (Isaías, 35: 4 a 7). No salmo 145, o Senhor "faz justiça aos oprimidos, / dá pão aos famintos, / liberta os cativos, / dá visão aos cegos, / endireita os que se curvam, / ama os honrados, / guarda os migrantes, / sustenta o órfão e a viúva / e transtorna o caminho dos perversos" (145: 7 a 9). Afora dois ou três itens, haverá coisa mais metafórica, para não dizer falsa, do que Deus desgrudar os olhos do cego, abrir os ouvidos do surdo, fazer o coxo saltar como cervo, a língua do mudo cantar, água brotar no deserto (Isaías), levar justiça ao oprimido, dar pão ao faminto, libertar o cativo, dar visão ao cego, sustentar o órfão e a viúva (salmo 145). Tiago (2: 1 a 5) é o único a fugir desse enganoso ramerrão. Alguma dessa beneficência ocorre, é verdade, mas é através dos serviços de saúde [física, mental, espiritual...] e  assistência social, quistos por Deus nos mandamentos que inscreveu na natureza humana. Marcos (7: 31 a 37) retorna ao bem-fazer: "[Jesus] fez tudo bem: faz ouvir os surdos e falar os mudos" (7: 37). Científica, filosófica e teologicamente, gol contra, sussurra meu dâimon interior [espírito não necessariamente mau]. Contexto Isaías, conforme a Bíblia da CNBB (2001) e os estudiosos em geral divide-se em três partes: primeiro ou proto-Isaías, do séc. VIII aC, no tempo dos reis, capítulos 1 a 39; segundo ou dêutero-Isaías, do séc. VI aC, no exílio babilônico, 40 a 59; terceiro ou trito-Isaías, também do séc. VI aC, no retorno da Babilônia a Jerusalém, 56 a 66. McKenzie, no seu Dicionário bíblico (2005), prefere a bipartição dos anúncios e denúncias proféticos: de 1 a 39, onde o Senhor aparece "num trono alto e excelso" (6: 1), e de 40 a 66, em cujo epílogo Deus promete: "Saireis com alegria, seguros vos levarão: / montes e colinas / romperão a cantar / diante de vós, / e as árvores silvestres aplaudirão" (66: 12) - colinas cantarem e árvores aplaudirem são prosopopéias de grande poeticidade. Isaías (35: 4 a 7), apesar de pertencer à primeira parte, que profetiza contra Judá ["Criei e eduquei filhos, / e eles se rebelaram contra mim", 1: 2] e contra as nações, como que antecipa a segunda, da qual as encostas e os vegetais arbóreos animados são exemplificação: "O deserto e o ermo se regozijarão, / a estepe florescerá de alegria" (35: ‘). O salmo 145 é, por igual, um hino de louvor: "Louva, minha alma, ao Senhor" (145: 1). Tiago (2: 1 a 5) deixa a louvação de lado e exorta "as doze tribos da dispersão [judaica]" (1: 1) a que sua "fé em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo não esteja unida a favoritismos" (2: 1). Marcos (7: 19 a 37) narra a cura de um surdo-mudo, na região de Tiro-Sidônia-Decápole, no norte da Palestina, nas imediações do Mediterrâneo. Texto Isaías (35: 4 a 7) prenuncia a volta dos judeus a Sião/ Jerusalém, após os domínios assírio e babilônico. Suas palavras são de estímulo: "Dizei aos covardes: / ‘Sede fortes, não temais / olhai vosso Deus que traz a desforra'" (35: 4). Segue-se uma série de feitos maravilhosos, referidos no pré-texto, para com os cegos, os surdos, os coxos, os mudos. Águas jorrarão no deserto. No covil dos lobos/ chacais, a erva se tornará junco e papiro/ caniço. É, mais uma vez, linguagem figurada, expressando renovação e vida, como acontece a quem renasce psicossomático-religiosamente. O salmo 145 prossegue no mesmo diapasão, inclusive nas curas miraculosas, de significado metafórico. De mais a mais, aconselha a não confiar nos nobres/ poderosos/ príncipes: "Sai seu alento/ Exalam o espírito/ Seu sopro parte" (145: 4). Contrariamente a esses, felizes são aqueles que têm por ajuda o Deus de Jacó [Israel], autor da terra, do céu, do mar e de tudo o que neles palpita (145: 5 e 6). Tiago (2: 1 a 5) muda o tom cósmico do salmo e o político de Isaías, assim como o semitom miraculoso de um e outro para a escala humana: "Suponhamos que em vossa assembléia entre alguém com anéis de ouro e traje elegante, e entre também um pobre esfarrapado" (2: 2). Tiago é a favor do segundo: "Escutai, meus queridos irmãos: não escolheu Deus os pobres de bens mundanos e ricos de fé como herdeiros do reino que prometeu aos que o amam?" (2: 5). Por que a opção pelos desvalidos? Porque são pobres de bens mundanos, como que mais incapazes de se ajudarem a si mesmos e ainda por cima explorados. E porque ricos de fé, quer dizer, confiantes em Deus e acolhedores de sua Verdade (Compêndio do catecismo da Igreja Católica, 2005, n.25), por mais perturbadores que, às vezes, sejam os seus intermediários - a Bíblia, a Igreja, os hierarcas, os fiéis... Marcos (7: 31 a 37) relata o episódio de um homem surdo e gago (Schökel, 2006)/ um surdo e que mal podia falar (Bíblia da CNBB, 2001/ um surdo que falou com dificuldade (Ecumênica, 1994; Pastoral, 2006)/ um surdo com gagueira (de Jerusalém, 1996)... Situação inicial - Começo da vida pública de Jesus, norte da Palestina. Fato desencadeador - A população leva a Jesus um surdo gago e lhe suplica impor-lhe as mãos. Episódios subseqüentes - Jesus (1) leva o surdo para o lado, à parte; (2) põe-lhe o dedo nos ouvidos; (3) ensaliva-lhe de leve a língua [os antigos atribuíam à saliva qualidades  terapêuticas, nota Schökel, 2006, p. 2415]; (4) levanta os olhos aos céus; (5) pronuncia a palavra Effatha/ Effatá/ Efatá [as transcrições variam], que significa ‘abre-te'; (6) "Imediatamente se lhe abriram os ouvidos, soltou-se-lhe o impedimento da língua e falava normalmente" (7: 35). Desenlace -Jesus manda os seus e os circunstantes não contarem nada a ninguém. Mesmo assim, o acontecimento se espalha. Pós texto As leituras deste vigésimo terceiro domingo do tempo comum e os fatos que inicialmente relacionei com elas levam a duas conclusões, inspiradas, uma, em Richard Rorty & Gianni Vattimo, em O futuro da religião, Santiago Zabala, org. (Rio de Janeiro; Relume Dumará, 2006), e, outra, em Roger Haight, SJ, em Jesus, símbolo de Deus (São Paulo: Paulinas, 2003). Dos primeiros, acolho que "a linguagem se desenvolve sempre no terreno da interpretação" (p. 21) e que "‘ser' não é o que já existe, mas, ao contrário, é o que acontece no diálogo cotidiano entre os humanos" (p. 79). Do segundo, de Haight, recolho que "a mensagem evangélica é que Jesus agia pelo poder de Deus, sempre em prol do bem-estar humano. Revelou, desse modo, um Deus absolutamente propício à existência humana, e ele próprio mediou o poder salvífico de Deus em ação na história" (p. 96). Mais: "Parece historicamente correto afirmar que as pessoas, na época de Jesus, provavelmente o próprio Jesus, entendiam que Deus estava em ação em seu ministério. Deus como Espírito, ou seja, simbolicamente, a presença e o poder de Deus, de alguma maneira, atuavam em Jesus e por seu intermédio, à medida que acudia os que sofriam" (p. 106). Nas duas passagens, a mensagem é Deus. Jesus é o mensageiro, consubstancial aos homens. Se, para justificar a afirmação de Gerdau e para condenar os autoritarismos religiosos em jogo, seja de que lado for, me escondi atrás de citações, foi também para, quanto possível, deixar clara minha posição de crente cristão. Malgrado a doutrina ser necessária e mesmo imprescindível, a ninguém assiste o direito de impô-la monoliticamente, sem dialogar.
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Vigésimo segundo domingo do tempo comum

Pré-texto A ênfase das leituras do vigésimo segundo domingo do tempo comum é na conduta humana. Conduta do verbo plurissignificativo latino conducere, ‘conduzir, unir, contratar, convir'. Como se vê, são sentidos bem diferentes, ainda que, a olhos atentos, interligados: condução pressupõe união, contrato, explícito ou implícito, conveniência, ou melhor, acordo. Prova da afirmação introdutória é que Moisés, no Detuteronômio (4: 1 e 2 e 6 a 9) manda Israel escutar "os mandatos e decretos" (4: 1) que, na condição de porta-voz do Senhor, Moisés ensina a praticar. As traduções variam lexicalmente: aBíblia da CNBB (2001) traduz a dupla de palavras ordenativas por leis e descretos; a de Jerusalém (1996), por estatuos e normas; a Ecumênica 91994), por leis e costumes; a Pastoral (2006), por estatutos e normas, assim como a de Jerusalém. Salta aos ohos tratar-se principalmente de prescrições positivas. O salmo 14 vai no mesmo sentido comportamental: "Senhor, quem pode hospedar-se em tua tenda? / Quem habitará em teu monte santo? / Quem é de conduta irrepreensível / e pratica a justiça" (14: 11 e 12). Justiça, note-se, são atitudes justas tanto para consigo mesmo [moderando-se] para com os outros [respeitando-os] e para com a sociedade [zelando pelo bem comum dela] quanto para com o plano ou vontade divinos, já, incluídos, aliás, nas práticas anteriores. Tiago (1: 17 e 18, 22 e 27) ordena: "Sede executores da mensagem [evangélica] e não somente ouvintes que se iludem" (1: 22). Marcos (7: 1 a 8), 14 e 15 e 21 a 23) aprofunda o tema, levando-o, do procedimento exterior [comer isto ou aquilo, lavar ou não as mãos], para o interior: "O que sai do homem é que contamina o homem" (7: 16). Pois bem. Colocado ante essas perícopes, olho ao meu redor antes de ir ouvi-las na igreja, na liturgia dominical. O que vejo, no meu entorno, relativamente a comportamento? Coisas díspares. No Estado [RS], o Ministério Público Federal move uma ação civil de improbidade administrativa, contra a governadora e mais oito pessoas ligadas ao governo dela, pelo desvio de 44 milhões de reais do Detra [Departamento Estadual de Trânsito, ao mesmo tempo em que a Assembléia Legislativa instaura uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] da Corrupção, a qual pode resultar em impeachment, ‘destituição de cargo executivo'. Brasília, por sua vez, dá início a uma CPI da Petrobras [melhor, Petrobrás], e o Senado está uma esbórnia de escândalos. Isto é, autoridades andam se comportando mal. Em vez de olhar para códigos éticos terrestres, profanos ou sagrados, há quem levante o olhar para os astros, como a norte-americana Susan Miller, consoante material da Veja de 12 de agosto de 2009, páginas 140 e 141. "Não existe predestinação, apenas influência dos planetas", avisa a astróloga, praticadora de uma astrologia preditiva [existe, além dessa, a natal, a médica, a sinastral ou relacional...]. Por que Deus não inscreveria indicações procedimentais nas estrelas? Curiosamente, ainda na Veja,, só que de 22 de julho de 2009, há uma reportagem sobre "Nossa família animal" [cães e gatos], das páginas 84 à 92], com os quais [bichos domesticados] a humanidade se relaciona, há 25 a 50 mil anos e faz literatura, desde o cão Argos - da Odisséia, de Homero [séc. IX aC] -, que morre de emoção, ao reencontrar o dono, depois de 20 anos de ausência dele, até as fábulas de Esopo [séc. VII aC], Fedro [séc. I aC], La Fontaine [séc. XVII dC]..., a cadela Baleia de Vidas secas, de Graciliano Ramos [séc. XX] e assim pó diante. Pois não é que esses felinos e caninos estão presentes em mais de 40% dos lares brasileiros das classes A, B e C. Ora, "tanto quanto as crianças [e os seres humanos em geral], eles precisam de limites". Caso contrário, tomam conta. Os canídeos, em especial, "estão programados para seguir um líder". Ta como os humanos, que, porém, escolhem livremente, não instintivamente, o seu caminho. Contexto As leituras deste domingo são do Deuteronômio, do salmo 14, de Tiago e de Marcos, todas voltadas para o cumprimento dos "preceitos do Senhor" (Deuteronômio, 3: 2).
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15 de August de 2009

Vigésimo primeiro domingo do tempo comum

Pré-texto As leituras litúrgicas do vigésimo primeiro domingo do tempo comum propõem, no seu todo, a opção por Deus de parte dos israelitas, num ato livre, alimentado por motivos ou recompensas. São, pois, três os elementos constitutivos da mensagem: (1) escolha, (2) liberdade e (3) motivação. (1) Em Josué (24: 15), Josué, sucessor de Moisés na condu-ção do povo ao país cananeu, dirige estas palavras aos seis liderados: “Se vos parecer difícil servir o Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir: aos deuses a quem vossos pais serviram do outro lado do rio [Eufrates, na Ásia] ou os deuses dos amorreus [de Canaã, cultuadora de Baal, deus da fertilidade], em cujo país habitais, mas eu e minha casa serviremos o Senhor”; (2) A decisão pressupõe autodeterminação [escolhei hoje a quem quereis servir]; (3) carga motivacional: “Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses. Porque o Senhor nosso Deus é quem tirou a nós e nossos pais do Egisto” (24: 16 e 17). Entre os três elementos citados – preferência, liberdade e motivação –, o salmo 33 acen-tua o aspecto motivador: “Este pobre cxclamou, e o Senhor o escutou / e o salvou de todos os seus perigos. / O anjo do Senhor acampa / ao redor de seus fiéis, protegendo-os. / Provai e apreciai o quanto é bom o Senhor: / feliz o homem que nele se abriga. / Respeitai ao Senhor, consagrados seus, / pois nada falta àqueles que o respeitam” (33: 7 a 10). Efésios (5: 21 a 32) salta do plano divino de Josué, 24 e do salmo 33 – preferir o Senhor livremente e por justa causa – para a esfera humana: “Submetei-vos uns aos outros em atenção a Cristo” (5: 21), sobretudo marido e mulher, imagens da relação de Cristo e da Igreja. João (6: 60 a 60) refere que, à pergunta sobre se também eles, os doze, queriam ir em-bora, como o faziam muitos discípulos escandalizados com as palavras de Jesus – “o pão que eu dou para a vida do mundo é a minha carne” (6: 51), Simão Pedro falou por eles: “Senhor, a quem iremos? Tu dizes palavras de vida eterna” (6: 68). É essa, pois, na liturgia da palavra deste domingo, a quarta forma de adesão a Deus [palavras de vida eterna], duas das quais são diretas: Longe de nós abandonar o Senhor (Josué, 24: 6) e Este pobre homem clamou, e o Senhor o escutou (Salmos,  33: 7), e duas, indiretas: o casal humano adere a Deus, pela submissão recíproca (Efésios, 5: 21), e os apóstolos, pelo seguimento de Cristo, mensageiro do Pai, com suas palavras de vida eterna (João, 6: 68). É com essa mensagem que a missa nos brinda, neste comum vigésimo primeiro domin-go: seguir Deus diretamente, como em Josué, 24 e no salmo 33, e, de maneira indireta, como em Efésios, 5 e João, 6. Visto, porém, que a celebração da Eucaristia é sempre conjuntamente missão, poderíamos aqui lembrar mais uma vez a educação. Cláudio de Souza Castro mostra, na Veja de 5 de agosto de 2009 (São Paulo, p. 26) que, vencidas no país as etapas da construção de escolas e da universalização da matrícula, faltam professores preparados, administradores operantes, currículos razoáveis, horas de aula suficientes, bom desempenho no Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] e no Enem [Exame Nacional de Ensino Médio]. “Os professores não aprendem a dar aulas”; “Não há prêmio para quem faz certo ou puxões de orelha para os incompe-tentes e negligentes”, lamenta Castro. Uma semana antes dessa manifestação, Luiz Carlos da Cunha escrevia na Zero Hora de 31 de julho de 2009 (Porto Alegre, p. 31), em “Matemática e IDH [Índice de Desenvol-vimento Humano]”, que “as escolas médias não encontram professores de ciências – física, química e biologia”. E acrescentava: “O pensamento matemático exige a clareza de linguagem e fluência expositiva. O que exige e determina falar e escrever correta-mente sua língua”. Longe dessa real preocupação lingüística, guardiães da comunidade científica brasileira [!] acabam de lançar um Dicionário de Lingüística da enunciação francesa (São Paulo: Contexto, 2009), “instrumento indispensável a todos os que têm paixão pela linguagem” (p. 9), atento às “exigências mais prementes dos consulentes” (p. 13) e do “estudante brasileiro da área de Letras em fase final de curso ou que inicia seus estudos de pós-graduação” (p. 29). Nutrem [os ditos representantes da comunidade científica] a esperança de que [o dicionário] possa “atingir professores de língua mater-na, em geral, e de lingüística do nível superior, em especial” (p. 31). Parece o senado brasileiro se lixando para a realidade nacional. Bem. O desenvolvimento educacional para todos e o homem todo, como preconiza Pau-lo VI na Populorum progressio (1967) e Bento XVI na \Veritas in caritate (2009), so-bretudo no capítulo primeiro, números 10 a 20, tem a ver, sim, com as leituras deste vigésimo primeiro domingo, porque [elas, as leituras] fazem parte dele [progresso], seja porque o pressupõem, seja porque o promovem. Contexto Josué, 24 coloca em cena Josué, que, depois de Moisés morrer, recebeu metaforicamen-te do Senhor esta incumbência: “Moisés, meu servo, morreu. Vamos, atravessa o Jordão com todo esse povo, em marcha para o país que lhe darei {Canaã]” (1: 2). O líder reli-gioso e militar comanda, então [séc. XIII aC] a conquista e reparte o território entre as doze tribos de Israel, descendentes dos doze filhos de Jacó [séc. XX aC]. De 1200 a 1030 [Ecumênica, 1994] ou de 1380 a 1050 [Youngblood, 2004], governaram os juízes [“Bendita seja sua memória”, exclama o Eclesiástico, 46: 11], que reuniam, a seu modo, o povo, para derrotar os inimigos, e exerciam a justiça. No século XII, introduz-se a monarquia, representada por Saul, Davi e Salomão. Após a morte deste acontece o cis-ma que divide o país nos reinos setentrional ou do Norte [Israel] e meridional ou do Sul [Judá]. Aquele cai em mãos assírias, em 722 aC; este se rende aos babilônios, em 586 aC. Na perícope deste domingo, Josué renova a aliança de Israel com Deus, depois de pres-sentir sua morte próxima. [“Hoje eu empreendo a viagem de todos”, 23: 14, na tradução de Schökel, e, mais explicitamente, na da Ecumênica: “Eis que eu, hoje, me vou, como irão todas as coisas terrestres”] e recomenda: “Esforçai-vos com toda a alma em amar vosso Deus” (23: 11). O salmo 33 é o mesmo do décimo nono domingo. Naquela oportunidade, mostrei como ele alternava a primeira, a segunda e a terceira pessoas: “Aproximai-vos [segunda]: eu [primeira] vos [segunda] ensinarei [primeira]. Existe alguém [terceira]...” (33: 12 e 13). Neste comentário, enfatizo que, nele, nos 23 versículos que o compõem, o nome do Se-nhor é repetido mais de 15 vezes, para elogiar-lhe a multíplice bondade. Efésios, 5 aborda o relacionamento conjugal, forma por excelência do amor fraterno/ humano, reiteradamente afirmado por Jesus. À indagação de um letrado sobre qual o mandamento mais importante, Jesus responde: “O mais importante é este: ‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente, com todas as tuas forças. O segundo é: Amarás o próximo como a ti mesmo. Não há mandamento maior do que estes’” (Marcos, 12: 29 a 31). João (15; 17) ordena: “Isto é o que [eu, Jesus] vos mando: que vos ameis uns aos outros”. Em Mateus (5: 44), se estende essa obrigação aos inimigos: “Amai vossos inimigos”. O evangelho de João (6: 60) a 69), proclama, na reação de Pedro, a certeza de que Jesus é o mensageiro de Deus Pai: “Senhor, a quem iremos? Tu dizes palavras de vida eterna” (6: 68 e 69). Palavra, aqui, não é só ato de fala [enunciado efetivamente realizado por um falante numa circunstância xis], como no credo da missa, mas também testemunho de vida, ou seja, de amor a Deus e ao semelhante, mesmo que hostil. Texto Josué (24: 1 e 2, 15 e 17 e 18) compreende uma convocação, um desafio e uma respos-ta. Josué “convocou os anciãos de Israel, os chefes de família, juízes e ajudantes” (24: 1). Onde isso? Em Siquém, cidade fortificada de Canaã e capital do reino do norte [Isra-el], a meio caminho entre o mar da Galiléia e o mar Morto. Aí lhes recordou o passado, desde a Mesopotâmia, onde o pai de Abraão, Taré ou Tera cultuara outros deuses, até Canaã – não a de agora, a de outrora –, o Egito, o deserto e de novo Canaã, locais for-madores de uma espécie de geografia da condição humana dos que acreditam em Deus. Desafiou-os [aos israelitas] a escolher a quem quisessem servir: “aos deuses a quem vossos pais serviram do outro lado do rio [Eufratesx] ou aos deuses amorreus em cujo país habitais” (24: 15). Os presentes se encheram de brio e responderam: “Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses. Porque o Senhor nosso Deus é quem ti-rou a nós e a nossos pais da escravidão do Egito” (24: 16 e 17). O Senhor do salmo 33 é bendito em si e pelo que faz. Em si. Por conseguinte, está sem-pre em minha boca” (33: 2) e dele me glorio (33: 3), pois é bom (33: 9) e digno de res-peito (33: 10). E o que ele faz? Cumula de bens (33: 11), dirige os olhos para os justos (33: 16), enfrenta os que agem mal (33: 17), livra do mal (33: 20), resgata a vida dos seus servos (33: 23). A propósito: resgate ou redenção, denotativamente, é o pagamento pelo preço de um objeto ou de uma pessoa presa. Conotativamente, é libertar, remir, salvar, pelo seguimento de Cristo, fiel à vontade e ao projeto divinos referentemente à humanidade e a cada mortal. Na pseudopaulina carta aos Efésios (5: 21 a 32), Paulo prega a submissão da mulher ao marido: “Após, como a Igreja se submete a Cristo, assim as mulheres aos maridos em tudo” (5: 22 a 24). É uma argumentação inconvincente em tempos de igualdade. Há, contudo, uma contraparte, um contrapeso: “Os maridos devem amar suas mulheres, co-mo a seu próprio corpo” (5: 28). O problema resolve-se em Marcos (9: 37): “Quem aco-lhe uma destas crianças em atenção a mim, a mim acolhe. Quem acolhe a mim, não é a mim que acolhe, mas sim àquele que me enviou”. Analogamente, quem acolhe sua es-posa, seu esposo, acolhe a Cristo e a Deus Pai. Em João (6: 60 a 69), muitos dos discípulos de Jesus acharam duro o discurso de Jesus de que ele era “o pão da vida” que “desce do céu, para que quem coma não morra” e de que o pão que ele dava para a vida do mundo era a sua carne (6: 50 e 51). “E já não an-davam com ele” (5: 66). Schökel, em nota a respeito disso (2006, p. 2568): “Carne e sangue equivalem à totalidade do homem”. Em conseqüência, não são simplesmente ‘tecido muscular’ e ‘líquido vermelho de plasma e glóbulos’, como entendiam os segui-dores de Jesus e como parece sugerir o número 283 do Compêndio do catecismo da Igreja Católica (2005), ao definir transubstanciação. É mais do que isso: é totalidade do homem [Jesus], Por isso mesmo, Pedro, primeiro, se desconcerta: “Senhor, a quem ire-mos?”; segundo, se recompõe: “Tu [na tua totalidade] dizes palavras de vida eterna” (6: 68). Pós-texto As leituras do vigésimo domingo do tempo comum, não obstante uma clivagem ou bi-partição: Josué, 24 e o salmo 33 & Efésios, 5 e João, 6 apontam no mesmo sentido, a adesão a Deus, seja a seu divino ser, seja àqueles com os quais ele se identifica: Jesus e o próximo.
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9 de August de 2009

Assunção de Nossa Senhora

Pré-texto Festeja-se, neste que seria o vigésimo domingo do tempo comum, a Assunção de Nossa Senhora, dogma mariológico definido por Pio XII, em 1° de novembro de 1959, em pleno séc. XX. Dogma, relembre-se, é, na definição de Houaiss (1998), um ‘ponto fun-damental de uma doutrina religiosa [no caso, a católica], apresentado como certo e in-discutível, cuja verdade se espera que as pessoas aceitem sem questionar’. Assunção é diferente de Ascensão. Se nos orientarmos pelos dicionários, ambos os ter-mos conotam subida: o primeiro, contudo, enfatiza a elevação levada a efeito por al-guém, e o segundo, a auto-elevação e a glorificação. Quanto à data, o soerguimento da assunta é indefinida; a do ascendente, desconsiderados os sentidos parental e astrológi-co, é no simbólico quadragésimo dia após a Páscoa. Pela etimologia, assunção vem de assumptio, que, por seu turno, deriva de assumere, ‘tomar para si, receber, assumir’. Recebimento é, aqui, a significação mais próxima. As-censão vem de ascensio, do verbo ascendere, ‘ascender, (fazer) subir’. Dirijo-me, agora, à literatura específica [eclesiástica]. Me surpreendo: nem o Dicionário ilustrado da Bíblia, de Youngblood, 2005, nem o Dicionário bíblico, de McKenzie, SJ, 2005, trazem o verbete Assunção [Ascensão, sim, fora de interesse no presente caso]. Não registram o vocábulo, também, 21 colunas de índice analítico do Compêndio do catecismo da Igreja Católica (2005), a não ser na resposta à pergunta: “Como a Virgem Maria ajuda a Igreja?”. Assim: “Depois de sua assunção ao céu, ela continua a interceder pelos seus filhos, a ser para todos um modelo de fé e de caridade e a exercer sobre eles uma influência salutar”. Felizmente o Catecismo da Igreja Católica (1993), do qual o Compêndio é um filhote catequético, reserva uma entrada à palavra, no seu índice temático, n. 966: “A Imaculada Virgem, preservada imune de toda mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celes-te”. Não se detalha como. Michaelis (1998) chega a falar em rapto, ‘ato ou efeito de arrebatar à força’, realizado por quê, por quem e em que circunstâncias? Viva? Já enter-rada? Logo depois do óbito? Mais tarde? Com seu corpo, como? Com sua alma, tá, “semente de imortalidade que leva dentro de si, irredutível à só matéria”, consoante o n. 33 do Catecismo citado. O Catecismo dito holandês = Novo catecismo: a fé para adul-tos (São Paulo: Herder, 1969), 39 anos anterior ao atual Catecismo da Igreja Católica,  declara na p. 547: “Enquanto, dos demais falecidos, dizemos apenas ‘eles ressuscitarão, estão para ressuscitar’, a respeito de Maria afirmamos: ‘Ela já foi ressuscitada’. Isso não exclui, contudo, que sua glória, como, aliás, também a de Cristo, seja apenas consumada, quando toda a humanidade estiver reunida, no fim dos séculos”. Ressurreição, portanto, antecipada, ainda que incompleta. O que é, porém, ressuscitar ou ressurgir? Sair desta para a eternidade, não sei de que maneira, logo depois do último suspiro ou na consumação dos séculos, segundo o Novo catecismo, desmentido por teólogos mais recentes. Ainda que o credo niceno-constantinopolitano, proclame desde o séc. IV dC: Et exspecto resurrectionem mortuorum. Et vitam venturi saeculi, ‘E espero a ressurreição da carne [dos mortos]. E a vida eterna [do século que há de vir]’. A Assunção é, de resto, a mais nova blindagem com que o catolicismo revestiu o nome de Maria contra... Contra o quê, afinal? Primeiro, há mil e 700 anos, foi a proclamação da concepção imaculada: “A beatíssima Virgem Maria, no primeiro instante de sua con-ceição [concepção], [...] foi preservada imune de toda mancha de pecado original” (Ca-tecismo da Igreja Católica, n.490). Depois, na mesma oportunidade, foi a virgindade, antes, durante e depois do parto. Ambos os itens vão contra o direito humano da igual-dade e revelam ignorância e preconceito. Para que tudo isso? Para colocar Maria num pedestal inatingível. No entanto, para fazê-lo, não se precisava desumanizá-la. Sábia, a liturgia da palavra se contenta com alegorizá-la, no Apocalipse (1: 19 e 12: 1 a 6 e 10) e no salmo 44; com torná-la partícipe da ressurreição universal [“Por um homem veio a morte, por um homem, a ressurreição dos mortos”], em ‘Coríntios (15: 20 a 27), com exaltá-la em Lucas (1: 39 a 56). Contexto O Apocalipse é o vigésimo sétimo e último livro do Novo Testamento. São 2 capítulos, escritos provavelmente nos anos finais do imperador Domiciano, de Roma (81 a 96 dC). O autor fictício é João, não o do evangelhos e das cartas. Tema: problemas dos cristãos da Ásia Menor, distribuídos em sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia, Laodicéia, que são, uma a uma, destinatárias de cartas, de 2: 1 a 29 e de 3: 1 a 22. As dificuldades vividas nessas comunidades vinham de fora, de Roma, que movia perseguições políticas, econômicas e religiosas a elas, e de dentro: entre os pergamenos, por exemplo, vigoravam doutrinas anticristãs; entre os laodicenos, havia os que não eram nem quentes nem frios e, por isso, dignos de serem por Cristo vomitados pela boca” (3: 15 e 16). O gênero literário da obra é o apocalíptico, muito comum no judaísmo de 200 aC a 200 dC, cheio de visões e simbolismos, como cores {cavalos branco, vermelho, preto esver-deado, 6: 2 a 8]; números: 4 [o mundo], 6 [imperfeição], 7 [totalidade], 12 [as tribos de Israel], mi [inumerabilidade]; Besta, Dragão, Satanás, Serpente – simbolizadores do mal X [vérsus, contra] Cristo, os cristãos, “a mulher vestida de sol” (12: 1), a nova Eva – representantes do bem. Tal simbologia opositiva recebe interpretações ora históricas: a luta do dia-a-dia, ora escatológicas: a batalha final dos bons contra os maus. A ‘revela-ção’ mais provável, que é o que o grego apokalýpsis significa, é a primeira, a cotidiana, estampada na mídia diária [corrupção, insegurança, doença, peste, sistema educacional em crise, pobreza, miséria, desemprego, famílias esfaceladas....]. Apocalipse (11: 19 e 12: 1 a 6 e 10) pertence à segunda das duas partes da obra (capítu-los 4 a 22: ataques do Dragão à Igreja, na pessoa da mulher vestida de sol (12: 1), a qual dá à luz um filho homem (12: 5), investido do “poder e reinado do nosso Deus” (12: 11). O salmo 44, classificado como régio ou messiânico, cuja característica é a de identificar majestade real com o próprio Deus, apresenta um rei no dia do seu casamento. Primeiro (44: 3 a 8), elogia-lhe as qualidades e funções. Segundo (44: 9 a 16), descreve-lhe a festa matrimonial. Destarte, o Apocalipse, 11 e 12 e o salmo 44 convergem na proclamação do poder e reinado do nosso Deus (12: 11). 1Coríntios (15: 20 a 27) associa-se a esse poder e reinado: “Com efeito, ele [Deus Pai] deve reinar até “pôr todos os seus inimigos sob seus pés” {12: 25). A frase entre aspas é do salmo 109: 1. Inimigos são os que se opõem à justiça, isto é, ao plano e à vontade de Deus, principalmente para com os pobres: “O Senhor faz justiça / e defende os oprimi-dos” (Salmos, 102: 6) e “O Senhor sustenta os humildes / e humilha os perversos até o pó” (id., 146: 6). Lucas (1: 39 a 56) narra a visita de Maria [de Nazaré, na Galiléia, ao norte] a Isabel [de um povoado desconhecido da Judéia, não longe de Jerusalém, no sul]. Do ponto de par-tida ao de chegada, seriam dois dias de caminho. Eram primas, as duas, e estavam grá-vidas: a visitante, de Jesus; a visitada, de João Batista. Maria, ao chegar, entoa o magni-ficat anima meã, ‘minha alma exalta/ louva’. O cântico de exaltação e louvor compre-ende duas seções: a de 46 a 49, é mais pessoal, celebrando a bondade de Deus de olhar “humildade de sua escrava [Maria]” (1: 48); a de 50 a 55, é mais universal, ressaltando a preferência divina pelos humildes e necessitados e, especialmente, por Israel. Do Apocalipse, 11 e 12, passando pelo salmo 44 e por 1Coríntios, 16, até aqui, impõe-se, pois, o poder divino. Texto O Apocalipse (11: 19 e 12: 1 a 6 e 10) pode ser dividido em seis momentos alegóricos, destinados à representação de pensamentos, idéias, qualidades, sob forma figurada ou alegórica. No primeiro momento, abre-se no céu o templo de Deus, com a arca da aliança à vista (11: 19). A arca era uma caixa de madeira de acácia de 1m e 10 cm por 70 cm, aproxi-madamente, contendo as duas tábuas de pedra dos dez mandamentos (v. Êxodo, 25: 16). No segundo momento, aparece no alto uma mulher grávida, vestida de sol, “a lua sob os pés e na cabeça uma coroa de 12 estrelas” (12: 1 e 2). No terceiro momento, surge um enorme dragão vermelho, “com sete cabeças e dez chi-fres [...] diante da mulher que dava à luz, disposto a devorar a criança, assim que nas-cesse” (12: 3 e 4). No quarto momento, a mulher dá à luz um filho homem, “que apascentará todas as na-ções com vara/ cetro de ferro” (12: 5). Por que de ferro? Porque firme? Porque domina-dor?. Não achei resposta na bibliografia consultada. A Bíblia ecumênica se limita a re-meter-me ao salmo 2: 9: “Tu os triturarás com cetro de ferro [os inimigos]” e ao Apoca-lipse, 2: 37: “Ao que vencer e cumprir minhas determinações até o fim, darei poder sobre as nações: ele as apascentará com vara de ferro, as quebrará como vasos de argila”. Ambas as remissões sugerem mais do que firmeza. No quinto momento, “a mulher fugiu para o deserto onde tinha um lugar preparado por Deus para mil, 200 e 60 dias” (12: 6). Schökel (2006) vê na fuga uma referência ao sal-mo 54: 7 a 9 [“Quem me dera tuas asas de pomba / para voar e pousar! / Então eu fugiria muito longe, / me hospedaria no deserto], uma alusão à saída dos israelitas do Egito e ao desmembramento, da Igreja cristã, do judaísmo. No sexto momento, o apocalíptico escritor relata: “Escutei no céu uma voz potente que dizia: Chegou a vitória, o poder e o reinado do nosso Deus e a autenticidade de seu Messias” (12: 10). Do conjunto, se depreende um simbólico embate entre a mulher [Maria, a nova Eva, o bem] e o dragão [Satanás, a Serpente, o mal], do qual sai vitoriosa a primeira, ao dar à luz um filho homem [Jesus, o Messias] que traz o poder e o reinado do nosso Deus. Tudo isso de envolta com números [7, 10, 12, 1.260: 1 + 2 + 6 = 9], cor vermelha e a história de Israel. É a marcha dolorosa da humanidade [“Gritava de dor no momento do parto”, 12: 1], rumo ao desenvolvimento pleno e universal. O salmo 44, conforme dito no contexto, é a exposição poética das bodas [do plural lati-no de votum, ‘voto, promessa por ocasião do casamento’, pela transformação de v em b e pela sonorização do t: votum-vota-bodas]  de um rei. Há como que uma proposição e uma dedicatória, formalmente épicas, ao estilo das epopéias gregas, latina e portuguesa conhecidas, mesmo que o hino seja lírico: “Brota-me do coração um belo tema, / dedico meu poema a um rei, / minha língua é ágil pluma de escriba” (44: 2). De 3 a 8, elogiam-se os atributos físicos e morais do monarca: “És o mais belo dos homens” (44: 3), “Valente, cinges no teu flanco a espada” (44: 4), “Cavalgas vitorioso pela verdade e pela justiça” (44: 5), “Tuas flechas são agudas, os exércitos se rendem a ti” (44: 6), “Teu trono, como o de um Deus, permanece para sempre” (44: 7), “Amas a justiça e odeias a iniqüidade” (44: 8), “Deus, o teu Deus, te ungiu” (ibid.). De 9 a 16, brilha, em primeiro lugar, o noivo real: “Tuas vestes têm perfume de mirra, aloé e acácia, [...] as harpas te festejam, filhas de reis vêm ao teu encontro” (44: 9 e 10). Em seguida, a composição focaliza a escolhida: “Escuta, filha, vê, dá ouvidos: esquece teu povo e a casa paterna.  O rei está apaixonado por tua beleza. Com todas as honras, a princesa entra, vestida de tecido de ouro e brocardos. Conduzem-na até o rei. Um séqüito de virgens a segue. Em lugar de teus pais, terás filhos e os nomearás príncipes por todo o país” (44: 11 a 17). Quem é o príncipe? Quem a princesa? Os pares Deus & Israel, a Igreja cristã a humani-dade; Cristo & Maria? 1Coríntios (16: 20 a 27) emenda, por assim dizer, na vitória, no poder, no reinado do Apocalipse (12: 10) e na sobrevivência “de geração em geração”, “pelos séculos dos séculos” do salmo (44: 18), ao anunciar: “Cristo ressuscitou como primícias dos que morreram, visto que, se por um homem [Adão} veio a morte, por um homem [Cristo] vem a ressurreição dos mortos” (15: 20 e 21). É uma antítese consagrada. Entretanto, a bem da verdade, Adão teria morrido e ressuscitado, mesmo sem o assim chamado peca-do original, de lavra agostiniana, nos sécs. IV e V dC. É a criaturidade que nos faz efê-meros e pecadores. Lucas (1: 39 a 51) refere-se à saudação de Isabel a Maria: “Bendita és tu entre as mulhe-res e bendito o fruto do teu ventre” (1: 42) e ao cântico inespontâneo de Maria, visto que tecido posteriormente pelo evangelista. De 47 a 49, o entoamento centra-se em Maria: “Minha alma proclama a grandeza do Senhor [...], porque olhou a humildade de sua escrava”. De 50 a 55, focaliza Deus, o Poderoso, que é “misericórdia” (1: 50) e “poder” (1: 51), derrubando do trono os potentados e exaltando os humildes, cumulando de bens os famintos e despedindo vazios os ricos (1: 52 e 53). Isso, é claro, no plano religioso, dado que, de acordo com a tese de Stark & Bainbridge, em Uma teoria da religião (São Paulo: Paulinas, 2008), há, para os crentes, recompensas e compensadores à eterna espe-ra. Pós-texto A Assunção de Nossa Senhora é, na liturgia da palavra dessa festividade, como que um potentíssimo spotlight, um ‘ponto/ projetor/ foco de luz ou holofote para o anseio hu-mano de superação e sublimação de sua finitude, tal como no Apocalipse, em 1Coríntios e em Lucas. No salmo 44, o superar-se e o sublimar, o perpetuar-se e o eternizar-se dão-se no amor e na família. A definição de que a “Imaculada Virgem [...] foi assunta em corpo e alma à glória celeste” assume, assim, uma dimensão antropológica acima e além de alienantes pietismos ingênuoss inexplicáveis.
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Décimo nono domingo do tempo comum

Pré-texto Na Bíblia, o divino e o humano se entrelaçam, quer na autoria, quer no conteúdo. Quem escreveu essa assim chamada Sagrada Escritura foram seres humanos. A mensagem é de além, sim, porém inscrita nas próprias criaturas, formuladoras dela, pois que feitas “à imagem e semelhança” do Criador (Gênesis. 1: 26). De mais a mais, já, nos primeiros séculos do cristianismo, S. Agostinho {354 a 430 dC] sentenciava, nas Confissões.que Deus me é mais íntimo do que o é minha própria intimidade – interior intimo meo –. Atualmente, a teologia admite, na esteira das colocações bíblica e agostiniana, entre outras, tidas como verdadeiras, que tudo o que é profundamente humano é divino, razão por que soa natural a ouvidos atuais o título que R. Haight, SJ deu à sua excelente vida de Cristo: Jesus, símbolo de Deus (São Paulo: Paulinas, 2003, 576p.) Quer dizer: “As pessoas encontram Deus em Jesus” ou “Jesus é Jesus, e não Deus, mas assinala Deus para além de si mesmo” (p. 140). No dia-a-dia, o imanente e o transcendente também se recobrem. “Então, viva o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio]” escreve Régis Gonzaga, conclusivamente em Zero Hora (Porto Alegre, p. 15, 12 jul. 2009). Em seis parágrafos, o articulista, professor de cursinho pré-vestibular, declara sua frustração de os professores da UFRGS [Universi-dade Federal do Rio Grande do Sul] não terem reagido (1) à declaração do Ministro da Educação de que daria verbas só às universidades que aceitassem o Enem na seleção de seus candidatos e (2) ao posicionamento do MEC de que o vestibular “era uma prova apenas de decoreba” e deveria ceder lugar, na ácida opinião de Régis, a “uma prova de charadinhas {a do Enem], ao invés de conteúdos [a do vestibular anterior]”. Diante da indiferença geral da UFRGS à declaração das autoridades do MEC, viva o Enem minimalista, conclui o pro-fessor contestador. De inhapa, volta sua metralhadora giratória contra a educação con-temporânea: “Assim, o problema do nosso ensino não são os baixos salários, a ausência e reciclagem dos professores, as teorias pedagógicas estarrecedoras [...], a falta de reais e sedutores desafios cognitivos aos alunos”. Nisso, em boa parte, o irônico ensaísta pró-pré-vestibular tem razão. No entanto, pré-vestibular resolve? É feito por quais candida-tos? Pelos mais aquinhoados, cujo retrato e nome circula depois, com o sorriso vitorioso dos aprovados, no vidro traseiro dos coletivos da Capital: “Passei no vestibular da U-FRGS”. Aqui, entra a transcendência: somos todos iguais. A visão exposta, ao contrário, desiguala. Discrimina. Elitiza. Cláudia S. S. de Souza, reitora do Ins6tuto Federal do Rio Grande do Sul, em resposta a Régis Gonzaga, em 17 de julho de 2009, na mesma Zero Hora, página 23, sem mencio-nar o autor citado nem seu texto, mas utilizando o mesmo número de parágrafos, seis, pensa diferente: “A nova proposta do MEC sobre a utilização do Enem como forma unificada de ingresso na universidade” tem como cerne a “possibilidade de atingir um número maior de alunos e também facilitar o acesso às universidades públicas”, tendo em vista que o ingresso em tais universidades pressupõe, via de regra, escolas privadas caras e cursinhos pré-vestibulares não menos onerosos ao bolso. O Enem traz duas van-tagens: a essencial cobrança de informações e uma formatação diferente do vestibular clássico. Neste ano de 2009, houve mais de 4 milhões e 576 mil inscritos no Enem, em todo o país. A prova será nos dias 3 e 4 de outubro, e o resultado servirá como medida parcial de entrada em cerca de 40 universidades federais e como via de obtenção de uma bolsa do ProUni [Programa Universidade para Todos]. Mais uma vez, a igualdade e a justiça, que transcendem o cotidiano terra-a-terra privilegiado, marcam presença. Posto isso, quais são as leituras ilustrativas da liturgia deste domingo? Estas: 1Reis (19: 4 a 8), Salmos (33), Efésios (4: 30 a 5: 2) e João (6: 41 a 51). Contexto Antes, porém, de contextuar as perícopes litúrgicas da data, acho útil uma referência a quatro conceitos nelas contidos. 1Reis, 19 refere que Elias “caminhou 40 dias e 40 noites [grifo meu] até o Horeb” (19: 8), monte da sarça ardente (Êxodo, 3: 2) e da aliança com Israel (Deuteronômio, 5: 2), onde, nesta nova circunstância, Deus se manifestaria a Elias, não no furacão, nem no vento, nem no fogo, mas numa brisa. Ora, no dilúvio, “choveu sobre a terra 40 dias com suas noites” (Gênesis, 7: 10); 40 anos teria o povo de Deus peregrinado no deserto, desde o Egito até “a estepe de Moab, junto ao Jordão, na altura de Jericó” (Búmeros, 33: 48); 40 dias e 40 noites passou Jesus em região árida e despovoada, posto à prova (Mateus, 4: 2; Marcos, 1: 13; Lucas, 3: 2); 40 dias Jesus res-surreto apareceu, aqui e ali, aos seus escolhdos, depois de padecer e ressuscitar (Atos, 1: 3). Trata-se, pois, de um número simbólico. Por outro lado, o salmo 33 aduz duas vezes a palavra justo (versículos 16 e 20): “O Se-nhor dirige os olhos para os justos” e “Por muitos males que sofra o justo, / de todos o Senhor o livra”. O termo, na Bíblia, refere-se tanto à prática das justiças distributiva, retribuidora, vindicativa e social, no campo dos direitos humanos, quanto à comparta-mental, relativa à vontade de Deus: a terrena, imanentista, a seu modo, e a celeste, transcedentalista, em certo sentido, as quais, ao fim e ao cabo, se fundem e confundem. Ainda no salmo 33: 23, “o Senhor resgata a vida dos servos”. Servo é uma designação bíblica reservada ao escravo, ao ministro, ao rei, ao profeta, ao crente, ao apóstolo [“Paulo, servo de Jesus Messias”, Romanos, 1: 1], ao Messias, servo do Senhor [“Vede meu servo, a quem sustento; meu escolhido a quem prefiro”, Isaías, 42: 1; “Vede, meu servo terá êxito, / subirá e crescerá muito”, id., 52: 13]. Já em Efésios, 5, ocorrem oferenda e sacrifício: “Cristo vos amou até entregar-se por vós a Deus como oferenda e sacrifício de aroma agradável” (5: 2), Os substantivos italicados são, em si, sinônimos, se bem que oferenda tenha significação mais incruenta, e sacrifício, mais cruenta. Nas duas palavras, todavia, o sangue é o de menos: o importante mesmo é aquilo de Hebreus, 10: 5: “Não quiseste sacrifícios nem oferendas. [...] Então eu disse: Aqui estou, vim para cumprir, ó Deus, tua vontade”. E esse é certamente o aroma agradável, a que faz alusão a carta de Paulo. Procedamos, enfim, à contextuação. 1Reis, 19 é do livro histórico 1 e 2Reis que, no início, eram um só. Constituem-se numa espécie de crônica da decadência, de 970 a 586 aC. Se 1 e 2Samuel traçam a história de Israel até Davi, cerca de mil anos aC, 1Reis descreve o reinado de Salomão, após cuja morte, em 970 aC, o reino secionou-se em nortense [Israedl] e sulista [Judá}. Dos reis originários deste cisma, ocupa-se 2Reis. O reino do Norte caiu nas mãos dos assírios em 722 aC; o do Sul, nas dos babilônios em 586 aC. Os livros 1 e 2Reis são controvertidamente atribuídos a Jeremias, e a liturgia da palavra de hoje coloca em cena Elias, companheiro de ministério profético de Eliseu, no séc. IX. Eliseu assistiu à elevação física de Elias (2Reis, 2: 11), episódio evidentemente maravi-lhoso e mítico. O salmo 33 é de agradecimento individual, na classificação da Bíblia da CNBB (2001) e de natureza hínica na interpretação de Schökel (2006). Sintetizando: é um hino de ação de graças em que a primeira, a segunda e a terceira pessoas polifonizam: “Bendigo o Senhor” [eu] (33: 2); “Engrandecei comigo ao Senhor” [vós} (33: 4); “Os ricos empo-brecem e passam fome” [eles] (33: 11). Efésios (4: 30 a 5: 2) enfoca a conduta cristã: “Não aflijais o Espírito de Deus” (4: 30). O verbo imperativo negativo, aflijais, de ad, ‘em direção a, contra’ + fligere, receber golpe’ atribui, por analogia e personificação, dor física e moral a Deus, metafisicamente impassívei. Em João (6: 41 a 51), Jesus se anuncia “o pão da vida” (6: 48) e assevera que ressusci-tará no último dia quem tiver sido atraído pelo Pai (6: 44). Eu esperava uma nota expli-cativa, dos tradutores da Bíblia, dessa asserção assim como do adjetivo último. Não a encontrei em nenhuma das cinco bíblias fidedignas que tenho sempre à mão: da CNBB (2001), Ecumênica (1994), de Jerusalém (1996), Pastoral (1991), do Peregrino (2006). Assim, fico meio sem norte e à deriva, até porque de Jesus se afirma ora que ressuscitou [os evangelistas, fora Marcos, cuja tradução literal de 16: 6 seria, segundo a Bíblia ecu-mênica: foi ressuscitado, registram, à uma, ressuscitou], ora, em vários outros passos, que foi ressuscitado. Antecipando uma síntese final, é de observar que uma vista retrospectiva das leituras mostra que, em 1Reis, 19, Elias obedece ao anjo, mensageiro de Deus; no salmo 33, “o anjo do Senhor acampa ao redor de seus fiéis [obedientes], protegendo-os” (33: 8); em Efésios, 5: 1, Paulo incentiva a imitar Deus. agindo “com amor, como Cristo” [obediente até a morte]; em João, 6: 45, Jesus move a escutar o Pai, recomendando, portanto o-bediência. Texto Em 1Reis (19: 4 a 8), Elias foge do rei Acab (séc. IX aC), monarca do reino de Israel, por ter vencido, sozinho, num desafio, os 450 sacerdotes de Baal, deus da fertilidade. A aposta era ver [para crer] quem enviaria do além fogo à lenha sobre a qual, de um e do outro lado, se encontravam cabritos cortados em pedaços: Javé ou Baal. Ao passo que do lado dos baalitas, nada, “o Senhor enviou um raio que incendiou a vítima e a lenha” (18: 38). Cansado da fuga, Elias adormeceu sob um junípero/ uma gista/ uma retama, e um anjo o despertou: “Levanta-te e come! Elias olhou e viu à sua cabeceira pão cozido sobre pe-dras e uma jarra de água. Comeu, bebeu e tornou a deitar”. Novamente acordado pelo emissário angelical, “levantou-se, comeu e bebeu e, com a força desse alimento, cami-nhou 40 dias e 40 noites até o Horeb (19: 5 a 8). É toda uma história fantasiosa para (a)firmar a assistência divina. O salmo 37 repete, entre 15 e mais vezes, Javé ou Senhor. O excerto formal e tematica-mente mais significativo é o de 12 a 15: “Aproximai-vos [segunda pessoa], filhos, e escutai-me: / eu [primeira pessoa] vos segunda pessoa ensinarei a respeitar o Senhor. / Existe alguém [terceira pessoa] que ame a vida, / e deseje anos desfrutando bens? / Guarda [segunda pessoa] tua língua do mal. / e teus lábios da falsidade; / aparta-te do mal, age bem, busca a paz, persegue-a” (33: 12 a 15). Guarda tua língua do mal / e teus lábios da falsidade, adverte o salmo. Paulo comple-menta a advertência: “Afastai de vós toda amargura, paixão, cólera, gritos, insultos e qualquer tipo de maldade. Sede amáveis e compassivos uns para com os outros. Perdoai-vos como Deus vos perdoou” (4: 31 e 32). João (6: 41 a 51) é uma cena de dois momentos distintos, encadeados. No primeiro, o murmúrio dos judeus contra Jesus proclamando-se “o pão descido do céu”: “Este não é Jesus, filho de José? Nós conhecemos seu pai e sua mãe” (6: 42). Jesus intervém, num segundo instante: “Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair” (6: 44). Está claro aí que Jesus é o enviado, não o enviador. Ou: o emissário, não o emissor. Ou: o mensageiro, não a mensagem. Como entender, então, o “eu o ressuscitarei no último dia”, tanto mais que “ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou, não o atrair e “quem escuta o Pai e aprende, virá a mim” (6: 44 e 45). A intervenção prossegue, já agora alheia aos seus opositores: “Somente aquele que está voltado para Deus [cumprindo-lhe a vontade], é que viu o Pai” [“Embora ser discípulo do Pai, não seja tê-lo visto”, anota Schökel (2006); tê-lo visto real ou metafisicamente?]. Eu vos asseguro que quem crê, tem vida eterna. Eu sou o pão da vida [pelo exemplo, pelo cumprimento dos desígnios divinos, pelo evangelho]. Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que quem o comer não morra [isto é, ressuscite]” (6: 46 a 50). Em tempo: João é de aproximadamente 70 anos posterior à morte e ressurreição de Cristo. Haja memória, atrapalhada ainda pelas tradições primitivas. Pós-escrito O compensador religioso, sobrenatural, prometido no evangelho é a vida eterna, para os atraídos pelo Pai a Cristo, compreendidos aí os crentes, os cumpridores dos desígnios divinos, redutíveis, estes, a amar a Deus e ao próximo. Segundo 1Reis, 19, o salmo 33 e Efésios, 5, são dignos dessa vida os que, na liberdade, realizam o projeto de Deus de desenvolvimento do homem todo e de todos os homens, na expressão da Populorum progressio, de Paulo VI, em 26 de março de 2007, retomada e expandida na Caritas in veritate, de Bento XVI, em 29 de junho de 2009.
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Décimo oitavo domingo do tempo comum

Pré-texto A cada comentário litúrgico, me defronto com o dilema de não ser especialista em reli-gião e em cristianismo e, não obstante, opinar sobre o assunto. Por que faço isso? Primeiro, porque me diz respeito. Segundo, porque tenho uma motivação interior para isso. Terceiro, porque é natural que eu procure ter uma consciência religiosa, quanto possível, esclarecida. Quarto, porque é direito e dever meu pensar no que me afeta inti-mamente, e, conseqüentemente, me posicionar. Agora mesmo, encontro-me às voltas com Uma teoria da religião, de R. Stark e W. S. Bainbridge (São Paulo: Paulinas, 2008, 496p.). No capítulo segundo, “A teoria nuclear: comprometimento religioso” (p. 33 a 70), os autores formulam “algumas informações simples acerca de como os indivíduos e pequenos grupos operam” (p. 36). Assentam, pois, o transcendente religioso no imanente humano. Ótimo. Enumeram, a seguir, três afirmativas, interligadas, que lhes sustentam o pensamento: sete axiomas, 334 proposições e 104 definições, os dois últimos elementos, é claro, ao longo de todo o livro. Axioma é um princípio evidente, que dispensa demonstração: Quero ser feliz. Proposição  é um enunciado verbal suscetível de ser ver-dadeiro ou falso: A felicidade é a busca do bem. Definição é o conceito que aponta a natureza essencial de algo: Bem é o que é conforme com a virtude [prudência, justiça, fortaleza, temperança; fé, esperança, caridade – eixos da vida virtuosa, respectivamente, humana, as quatro primeiras, e divina, as três últimas. As explicações e as exemplifica-ções são minhas. Tentemos aplicar isso à missa. O axioma subjacente é o de a criatura ter compromisso reverencial com o Criador. Uma proposição daí derivada é participar da missa aos do-mingos e outras festas de guarda. E uma definição poderia ser, conforme o n. 71 do Compêndio do catecismo da Igreja Católica (2005), a de memorial do “sacrifício do Corpo e do Sangue do Senhor Jesus” (n.271), em dois momentos: a liturgia da palavra e a eucaristica. Os dicionários definem o ato litúrgico em pauta como cerimônia/ celebra-ção eucarística com que a Igreja Católica comemora o sacrifício de Jesus Cristo pela humanidade (Aurélio, 1986; Houaiss, 2001; Michaelis, 1998). Houaiss explicita que missa é a substantivação do particípio passado do latino mittere, ‘deixar ir, lançar, man-dar’, tirado do imperativo latino final do ritual pré-Vaticano II, dos anos 60 do séc. XX: Ite, missa est, ‘Ide, a oração [em latim, precatio, ‘prece’, subentendida] foi enviada [a Deus]. Como o particípio substantivado sugere, trata-se de um estímulo à ação e ao tes-temunho cristãos. Desde logo, não deixemos passar em brancas nuvens dois termos acima citados: sacrifí-cio, sem essa de sadomasoquismo redentor cruento e sanguinolento [o que redimiu foi o cumprimento da vontade divina, como se lê em Hebreus (10: 5 e 7): “Não quiseste sa-crifícios e oferendas. Então eu disse: Aqui estou, vim para cumprir, ó Deus, tua vonta-de”], e eucaristia, ‘ação de graças’, do grego eu, ‘bem’ + cháris, ‘ação de graças’. Aproveitando o gancho, vim para cumprir tua vontade, que se resume em amar a Deus e ao próximo, transitemos para as leituras do décimo oitavo domingo do tempo comum: Êxodo (16: 2 a 4 e 12 a 15), Salmos (77), Efésios (3: 17 e 24 a 28), João 6: 24 a 35). Ne-las, cai manã, do início ao fim. Ou: distribui-se pão. Ou: faz-se “a vontade daquele que me enviou [o Pai]” e termina-se “sua obra” (João, 4: 34}. Na história ou na História, com seus altos e seus baixos. Contexto O Êxodo é o segundo livro do Pentateuco [conjunto dos cinco, penta, livros iniciais do Antigo Testamento, constituído de peças heterogêneas que vão de relatos e poemas a registros de arquivo, códigos legais e litúrgicos, documentos jurídicos – acima de todos sobressaindo o gênero narrativo. Exodus significa ‘saída’, e a obra tem como conteúdo principal a libertação, dos hebreus, do Egito [opressão; Moisés: nascimento e primeiros anos de vida, vocação, comparecimento diante do Faraó (capítulos 2 a 7); pragas; parti-da, travessia do mar, deserto (12 a 18); Sinai: decálogo, aliança, bezerro de ouro, arca, santuário (19 a 40) – tudo envolto em maravilhoso ‘o que parece extraordinário e divino’ e em mito [narrativa de significação simbólica e baseada numa interpretação primitiva, ingênua e tradicional, cuja essência, contudo, é verdadeira: os míticos Édipo e Eletra, da tragédia grega, foram relidos cientificamente por Freud]. Êxodo (16: 2 a 4 e 12 a 15) se passa do lado de lá [oriental] do Mar Vermelho, em plena região desértica: “A comunidade israelita protestou contra Moisés e Aarão [irmão de Moisés e primeiro sumo sacerdote de Israel] (16: 2). A perícope relata esses protestos e o atendimento a eles pelo Senhor, enviando codornizes e pão, este em forma de “pó fino como geada” (16: 14 ou, na versão de Números (1: 7), de algo parecido com “semente de coentro [planta umbelífera, isto é, com formato de chapéu-de-sol ou sombrinha, hor-tense e aromática, usada como tempero e produtora de fruto, que o povo moía no moi-nho ou socava no pilão e depois cozinhava e transforma em broas/ bolos], com cor de bdélio [avermelhada]”. As descrições divergem muito, o que reforça a marca alegórica disso conhecido como maná, denominação que se origina do hebraico man hu – a per-gunta feita pelos peregrinos e traduzível por “o que é isso?” (Êxodo, 16: 15). Em João (6: 32 e 33), Jesus alude a essa comida extraordinária e maravilhosa, em novo sentido: “Eu vos asseguro que não foi Moisés quem vos deu pão do céu: é meu Pai quem vos dá o verdadeiro pão do céu. O pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mun-do”. O salmo 77 classifica-se entre os históricos, “que rezam a Deus com os fatos da vida e do passado de Israel, meditando-os para deles tirar lições de vida”, define a Bíblia da CNBB (2001, p. 721). “Escuta, povo meu, minha instrução: [...] Farei brotar enigmas [paradoxos] do passado” (77: 1 e 2). Nos 72 versículos do salmo, o segundo maior do saltério, canta-se a tradição [“Aquilo que ouvimos e aprendemos, / ... nós o contaremos às gera-ções seguintes”, 77: 3 e 4; “Ele ordenou a nossos pais que o fizessem saber aos seus filhos”, 77: 5]; relembra-se a “aliança com Jacó” (id., ibid.); rememoram-se as incidências e reincidências de Israel no pecado (77: 38) e o subse-qüente perdão (77: 38); conta-se a história, do Egito a Canaã, e a preferência pela tribo de Judá [Sul], depois da divisão do reino, no séc. X. Judá sucumbiria no séc. VI aC, ao passo que Israel [Norte] já caíra no séc. VIII aC. Retomando e resumindo: no Êxodo, Deus está com seu povo inconstante e no salmo, igualmente [“Seu coração não era constante com ele [Deus] / nem eram fiéis à sua ali-ança, 77: 37]. Na na carta aos Efésios, 50-51 aC, Paulo, no início da segunda parte, exortativa (capítu-los 4 a 6], ao contrário da primeira (1 a 3), doutrinária, insta os cristãos a que se revistam “da nova humanidade” (4: 24), como Deus queria também no Êxodo, 16 e no salmo 77. João (6: 24 a 35), se dividirmos o evangelho em quatro partes – prólogo (capítulo 1), sinais de Jesus (1 a 12), exaltação (13 a 20) e epílogo (21) –, pertence à segunda parte: o sinal do verdadeiro pão do céu ou da vida. Pão, aqui, equivale a Jesus [“Eu sou o pão da vida”, 6: 35], como se fosse a vontade divina e o maná encarnados.. Texto No Êxodo (16: 2 a 4 e 12 a 15), há, no começo, um protesto contra Moisés e Aarão, ou uma interpelação a eles, ou ainda uma lamentação e uma queixa. O alvo é Deus, porém os israelitas se dirigem a ele por meio de seus intermediários: “Oxalá tivéssemos morrido nas mãos do Senhor no Egito, quando nos sentávamos junto à panela de carne e co-míamos pão, até nos fartar! Vós nos tirastes para este deserto, a fim de matar de fome toda esta comunidade” (16: 3). A resposta condescendente vem do mediador Moisés, não direta do Senhor: “Ouvi os protestos dos israelitas. Dize-lhes: Ao entardecer, come-reis carne, pela manhã vos saciarei de pão, para que saibais que eu sou o Senhor vosso Deus. Pela tarde, um bando de codornizes [aves galináceas migratórias da Europa, Ásia e África, de 18 centímetros de comprimento e muito apreciadas como caça] cobriu todo o acampamento; pela manhã havia uma camada de orvalho ao redor do acampamento. Quando a camada de orvalho evaporou, apareceu na superfície do deserto um pó fino como geada” (16: 12 a 14). Continuássemos com o mesmo pensamento mítico, ficaría-mos nos perguntando por que Deus não repete, hoje, o feito com um bilhão de esfomea-dos que há no mundo. O salmo 77, como dito no contexto, se quadridimensiona em tradicional, aliancista, memorativo e histórico. Atenho-me à dimensão rememorativa: “Como se rebelaram no deserto, / desgostando a Deus na estepe! / Voltavam a tentar a Deus, / irritando o Santo de Israel, / sem lembrar-se daquela mão / que um dia os livrou da opressão, / quando fez sinais no Egito / e portentos na campina de Soã [importante cidade egípcia, a nordeste do delta (embocadura ramificada) do Nilo, em cujas cercanias, em terra própria para pas-tos, os israelitas estavam estabelecidos]. / Transformou em sangue seus canais / e seus arroios para que não bebessem; / mandou-lhes moscas [...] / matou com granizo seus vinhedos [...] / entregou seu gado à chuva de pedras; / [...] entregou suas vidas à peste; / feriu os primogênitos (77: 40 a 51). Ponhamos entre parênteses a antropomorfização da feroz irritação divina, causa de muito ateísmo [“Lançou contra eles sua ira ardente, / sua cólera, seu furor, sua indignação...”,77: 49] e sublinhemos os versículos 52 a 54: “Tirou seu povo como um rebanho, / guiou-os como ovelhas pelo deserto; / e os conduziu seguros, sem alarmes, / enquanto o mar cobria seus inimigos [ outro verso indigno do Criador]. / Ele os fez entrar pela santa fronteira [Canaã, que, de resto, tinha dono humano], / ao monte que sua direita adquirira”. Há, no Êxodo, um Deus providente e bom e, no salmo, em regra, igualmente. Em Efé-sios, 4, essa providência e bondade traduzem-se na correspondente conversão [que é um voltar-se com, com os ditames celestiais inscritos no mais íntimo do sef, para Deus, através da Igreja: vertere + cum ou cum + vertere): “Portanto, [...] não vos comporteis como os pagãos, com suas idéias vãs” (4: 17). “Revesti-vos da nova humanidade. Dizei a verdade uns aos outros. Não se ponha o sol sobre a vossa ira. Quem roubava, não roube mais; ao contrário, trabalhei e se afadigue com as próprias mãos para ganhar alguma coisa e estar em condição de socorrer a quem tem necessidade” (4: 24 a 26). Se, na oração imperativa {“Revesti-vos”] o foco é Deus, nas demais a atenção é para o próximo, sendo com ele verdadeiro, cordato, respeitoso, benevolente. João (16: 24 a 35) volta às margens do lago de Tiberíades, como no décimo sétimo do-mingo, ao momento em que Jesus [J], depois de dar de comer a cinco mil, se retira, e a multidão [M] lhe vai atrás, até Cafarnaum, na orla setentrional leste do lago/ mar de Ti-beríades. Estabelece-se, então, o diálogo abaixo: M – Quando chegaste aqui? J – Me procurais porque ficastes saciados de pão. Trabalhai, não por um sustento que perece, mas para um sustento que dura para a vida eterna. M – O que devemos fazer para trabalhar na obra de Deus? J – A obra de Deus consiste em que creiais naquele que ele enviou. M – Que sinal fazes para que vejamos e creiamos? Nossos pais comeram o maná no deserto. [Essa frase não engata bem na anterior, mas serve de transição para a fala se-guinte.] J – Eu vos asseguro que não foi Moisés quem vos deu pão do céu. O pão de Deus é a-quele que desce do céu e dá vida ao mundo. M – Senhor, dá-nos sempre deste pão. J – Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim, não sofrerá fome, aquele que crê em mim, não passará sede (6: 25 a 35). Pós-texto Pão [do céu, da vida] = maná = fé [naquele que o Pai enviou] = vontade de Deus [alian-ça no Antigo Testamento; Jesus, no Novo]. Note-se que não se diz, por exemplo, aquele que toma a comunhão, mas “aquele que vem a mim” (6: 35) = aquele que adere a mim no amor a Deus e ao próximo.
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11 de July de 2009

Décimo sétimo domingo do tempo comum

Pré-texto Compareço dominicalmente à missa com duas intenções: juntar minhas oferendas às de Cristo, ambas redutíveis à vontade de Deus, e de lá sair com a missão de testemunhar o cristianismo. Observe o verbo com que iniciei o parágrafo: deriva de comparere, ‘mos-trar-se, apresentar-se, comparecer’, de cum, na acepção de contigüidade e companhia’ + parere, significando ‘comparecer’. Faço-me presente a Deus, junto com Jesus Cristo, com o celebrante, meu lugar-tenente, e com os fiéis, meus irmãos de fé e caminhada. Quem é Deus aí? É o destinatário último da celebração, a quem a liturgia se dirige de-pois do Glória [“Ó Deus, fonte de todo o bem...”], depois do Ofertório [“Ó Deus, vede nossa disposição em vos servir...”] e depois da Comunhão [Ó Deus, que curais nossos males...”]. As palavras entre colchetes variam, mas iniciam invariavelmente com a in-vocação “ó Deus”. E quem é “Cristo, nosso Senhor”, pelo qual as citadas orações termi-nam? A resposta está numa variante dessa invocatória: “Por Cristo, nosso Senhor”. Por: ‘por meio de’ Jesus Cristo, vosso Filho. Amém. Intercessor, portanto. Medianeiro. E-xemplo. Que mais? Colho em Cristo Jesus: conhecê-lo amá-lo segui-lo [sic, sem pontu-ação, como a denotar e conotar encadeamento lógico], tradução de Maria Antônia P. C. Figueiredo e autoria do jesuíta Manuel G. de Alba (Bauru, SP: EDUSC, 1998, p. 177), uma explicação surpreendente: “No contexto da fé, único no qual tem sentido a expres-são ‘Jesus é Deus’, a expressão é menos metafísica – essencialista – que histórica. Deus se revelou, deu-se a nós e nos uniu a ele [Deus], em Jesus de Nazaré e, por isso [por essa revelação através de Jesus], Jesus é Deus”. Jesus é Deus historicamente [em função do contexto greco-romano, da tradição, da dogmática], não metafisicamente nem essen-cialmente. (continua) (continuação do décimo sétimo domingo do tempo comum – parte 2) Eu dizia, no começo, que associo minha oferta à de Jesus Cristo. Que tenho hoje para oferecer? Uma pasta cheia de recortes. Me limito a três. No primeiro deles, Luís Augus-to Fischer comprova, em artigo de Zero Hora, Porto Alegre, no caderno Cultura de 7 de junho de 2008, p. 6 e 7, que “1968 derrubou a literatura”, ao implantar uma reforma de ensino emburrecedora, que, descultivando a leitura e a escrita, proscreveu o pensamento e a criatividade mais apurados, em favor de uma indústria cultural, ligeira e leve, encar-nada na música popular [rock/roque, jovem-guarda, bossa-nova, samba, folclore...] e na telenovela. “A literatura (de livro) [poesia, romance, teatro, crítica literária] perdeu ter-reno ou ao menos deixou de ganhar, o que é uma lástima, vistas as coisas do ângulo de cultura exigente e do debate crítico” (p. 7, col. 4). Deixa-me levar ao altar essa primeira oferenda. A segunda é a CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] do DETRAN [Depar-tamento Estadual de Trânsito], na Assembléia Legislativa do Estado, que desviou para os bolsos aéticos de pessoas físicas e morais mais de 40 milhões de reais, gerando a pergunta. Onde foram parar o imposto, o seguro e as multas de tantos carros em circula-ção? Na extensão dessa roubalheira, a terceira oblata: a conversa entre o chefe da casa civil do Governo do Estado do RS e o vice-governador, gravada sorrateiramente por este último. . Do lúbrico diálogo emerge que DAER [Departamento Autônomo de Es-tradas de Rodagem], DETRAN e BANRISUL financiam, faz anos, campanhas políticas, usando dinheiro público para fins particulares e partidários. Que ofertório sujo esse meu! Trarão algum lenitivo ou remédio à situação as leituras deste domingo do tempo comum: 1Reis (3:   5 e 7 a 12), Salmos (118: 57, 72, 76 e 77 e 127 a 130), Romanos (8: 28 a 30), Mateus (13: 44 a 52)? (continua) (continuação do décimo sétimo domingo do tempo comum – parte 3) Contexto 1 e 2Reis são livros históricos e cobrem quatro séculos turbulentos do chamado povo de Deus, de 970 a 590 aC, mais ou menos, com ameaças e ações da Siria e da Assíria, no século VIII aC, e a dominação da Babilônia, no século VII aC. Roma, fundada em 753 aC era, então, um rascunho na escrivaninha do Criador, e, na Grécia, Homero ritmava em decassílabos a Ilíada e a Odisséia, ao passo que os escravos gregos construíam nas colinas as arquibancadas destinadas às platéias das tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eu-rípedes e das comédias de Aristófanes.. Reis era, no início, um livro só, o primeiro em 22 capítulos dedicados a Salomão e à divisão do reino em dois: o do Norte, de Israel, e o do Sul, de Judá, e o segundo livro ocupado, em 28 capítulos, com os reinados subse-qüentes à separação. Não é história em sentido estrito que ali se conta, não são fatos objetivos, ligados a causas e conseqüências. O que interessa mesmo é a mensagem dos acontecimentos imaginosamente narrados, nos quais Javé e os profetas – anunciadores e denunciadores – nunca deixam de interferir. São da mesma natureza histórica de 1 e 2Reis: Josué, Juízes, Rute, 1 e 2Samuel, 1 e 2Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judii-te, Ester, 1 e 2Macabeus. (continua) (continuação do décimo sétimo domingo do tempo comum – parte 4) O salmo 118 é disparado o mais extenso do psaltério: 172 versículos. Não passam de cinco os que se enquadram na faixa de 41 (três), 50 (um) e 70 (um). Por outro lado, 45 ficam entre dois e dez. No saltério de 150 composições são 2.500 as pequenas subdivi-sões numéricas de uma, duas e três linhas, denominadas versículos, o que dá uma média geral de 17 numerações por unidade temática. O salmo 118, com 172 versículos, é, por conseguinte, longe o maior em tamanho. Por isso mesmo, a liturgia de hoje lhe pinça tão-só oito passagens significativas em torno de palavra (72: 57), lei (172: 72), vontade (172: 77), mandamentos (172, 126) divinos. Paulo, em Romanos (8: 28 a 30), afina com 1Reis, livro em que Salomão pede a Javé discernimento entre o bem e o mal, e com o salmo 118, em que o salmista exclama: “Felizes os íntegros em seu caminho, / os que andam conforme a vontade de Javé” (118: 1), na medida em que afirma todas as coisas concorrerem “para o bem dos que amam a Deus” (8: 28). Discernimento entre o bem e o mal, vontade de Javé e amor a Deus si-nonimizam entre si. (continua) (continuação do décimo sétimo domingo do tempo comum – parte 5) E são, ainda, sinônimas dessas três expressões as parábolas do Reino do Céu, de Mateus (13: 44 a 52): a do tesouro escondido (13: 44),, a do comprador de pérolas (13: 45) e a da rede lançada ao mar (13: 47 a 49). Apontam à uma para uma nova ordem social no cumprimento da vontade de Deus. A esse respeito, Roger Haight, em Jesus, símbolo de Deus, tradução de Jonas Pereira dos Santos (São Paulo: Paulinas, 2003, p. 104) tece a seguinte consideração: “Ao fazer do reino de Deus o núcleo de sua pregação, Jesus foi teocêntrico. Não proclamou a si mesmo; sua pessoa e sua obra não aparecem como o foco de seu próprio ensinamento. Pelo contrário, Jesus falava a respeito de Deus, os valores de Deus, as prioridades de Deus dominavam tudo quanto se lembrava haver Jesus dito e feito. Quando afirmava que Jesus foi obediente ou recebeu uma missão do Pai, o Novo Testamento reflete a centralidade do reino de Deus na vida de Jesus como causa. O consistente retrato de Jesus é o de alguém absolutamente comprometido e fiel à missão de concretizar e objetivar a vontade e os valores de Deus na história”. Vide supra de Alba. (continua) (continuação do décimo sétimo domingo do tempo comum parte 6) Texto 1Reis (3: 5) relata que Salomão, filho de Davi, recém-coroado rei, aos 20 anos, foi a Gabaon/Gibeão [encontram-se as duas formas], uma aldeia nove quilômetros a oeste de Jerusalém, para oferecer sacrifícios, nada menos do que mil holocaustos [com incinera-ção total das vítimas]. Nesse lugar, Javé lhe aparece em sonhos, durante a noite: “O que lhe posso dar?” (3: 5). O monarca: “Eu sou bem jovem e não sei como governar. [...] Ensina-me a ouvir, para que saiba governar” (3: 7 a 9). Javé o elogia por não haver pe-dido vida longa para si, nem riquezas, nem a morte de seus inimigos, “mas discernimen-to para ouvir e julgar” (3: 11). Salomão reinou 40 anos, de 970 a 930 aC, expandiu e notabilizou o reino, construiu o templo de Jerusalém, com 180 mil homens – 30 mil cortadores de madeira dos bosques de cedro do Líbano [não se falava ainda em desma-tamento, camada de ozônio, aquecimento global]; 80 mil talhadores de pedras, 30 mil pedreiros e supervisores, informa Youngblood, no Dicionário ilustrado da Bíblia (2004, p. 1284 –, construção magnífica, arrasada pelos babilônios em 587 aC, e ergueu um palácio para ele, para sua esposa egípcia e para as centenas de suas concubinas. Acabou a vida ingloriamente [seu pai Davi a começara escandalosamente, ao apoderar-se da mulher de um amigo, ao qual mandou matar], permitindo que seu harém praticasse ritos pagãos e participando ele mesmo desses cultos idolátricos. Ainda assim, é autor do Cânbtico dos cânticos [“Beije-me com os beijos de sua boca! / Seus amores são melho-res do que o vinho”, 1: 2] e do livro de Provérbios [“Provérbios de Salomão, filho de Davi e rei de Israel, para conhecer a sabedoria e a disciplina”, 1: 1]. (continua) (continuação do décimo sétimo domingo do tempo comum – parte 7) “Ensina-me”, suplicava Salomão. O salmo 118 reitera a súplica num campo semântico em que se repetem, a espaços, nove termos a serviço da esfera conceitual normativa: vocábulos ocorrências caminho  5 estatuto 20 lei   4 mandamento 22 norma   21 palavra 21 preceito 19 testemunho 21 vontade  21 O versículo 57 da leitura litúrgica deste domingo resume o elenco novenal: “Minha por-ção, Javé, eu o digo, / é observar as tuas palavras, e os versículos 129 e 130 o reafir-mam: Teus testemunhos são maravilhas, / por isso eu os guardo. / A descoberta das tuas palavras ilumina / e traz discernimento aos simples”. Discernimento era também o elo-gio de Javé a Salomão. (continua) (continuação do décimo sétimo domingo do tempo comum – parte 8) Romanos, mesmo desviando-se tematicamente da visão preceptiva de 1Reis e do salmo 118, mantém o mesmo clima: Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus” [observando-lhe o decálogo, aliás inscrito nas tábuas mais íntimas do nosso ser], “daqueles que são chamados segundo o projeto dele [da antiga e da nova Aliança]. Mateus, nas parábolas do Reino, realização concreta do ensinamento de 1Reis, 3, do estatuto ou da lei orgânica do salmo 118 e do projeto de Romanos, alegoriza o tesouro escondido no campo e a pérola preciosa, pelos quais vale a pena vender todos os seus bens e comprar o campo e a pérola. Compara, outrossim, o Reino a uma rede lançada ao mar. “Ela apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e escolhem: os peixes bons vão para os cestos, os que não pres-tam são jogados fora” (13: 47 e 48). Para os cestos ou para a direita, o amor a Deus e ao próximo. Fora ou para a esquerda, o desamor. Pós-texto As leituras do décimo sétimo domingo do tempo comum se concentram na vontade de Deus, sob várias designações, lidas agora de trás para a frente: Reino (Mateus), projeto (Romanos), lei de Deus (salmo 118), ensinamento (1 Reis, 3). As oblações de que me fiz portador no pré-texto – indústria cultural avessa à leitura, CPI e gravações atentatórias à coletividade – hão de, no dia-a-dia, amoldar-se ao valor maior do bem comum..
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Décimo sexto domingo do tempo comum

Pré-texto As leituras deste décimo sexto domingo do tempo comum transpiram bucolismo... bí-blico. O adjetivo exclui, desde já, a mera acepção literária, tal como a das Bucólicas, de Virgílio ou da poesia bucólica do Arcadismo luso-brasileiro do séc. XVIII, por exem-plo, relativamente a pastores de qualquer tipo de rebanho e de seus respectivos animais: bovinos, ovinos, suínos, eqüinos... Em tempo se diga que écloga é sinônimo de bucóli-ca, com a diferença de que aqui se destaca o substantivo grego bous [lê-se bus], ‘boi’ e lá os verbos greco-latinos légein e legere, ‘escolher’, correspondentes às seletas, às se-leções, às compilações líricas que o tema ensejava. É claro que ovelhas se prestavam mais à literatura, ao verso, às alegorias do que bois, porcos, cavalos. A observação vale mormente para o Oriente Médio, onde o pastoreio nômade do gado ovelhum era uma das principais atividades e em cujo povo, solo e cultura a Bíblia nasceu e vicejou. Pois, nas leituras deste domingo, Jeremias (23: 1 a 6) ameaça: “Ai dos pastores que dispersam e extraviam as ovelhas do meu rebanho” (23: 1); o salmo 22, evocando Eze-quiel, 34: 15: “Eu mesmo apascentarei minhas ovelhas”, faz Davi exclamar: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (22: 1); Marcos registra que, “ao [Jesus com os apóstolos] desembarcar [numa praia despovoada do lago de Genesaré, para descansar com os seus escolhidos] viu uma grande multidão [que se antecipara ao seu desembarque] e sentiu pena, porque eram como ovelhas sem pastor” (6: 34). Só Efésios (2: 13 a 18) não junta sua voz às manifestações ovinopastoris, mas lembra aos seus “consagrados [converti-dos] de Éfeso, fiéis ao Messias Jesus” (1: 1), que Jesus Cristo derrubou as barreiras que separavam os judeus dos pagãos, o que pode relacionar-se com João (10: 16): “Tenho outras ovelhas que não pertencem a este redil [de seguidores]; a essas tenho que guiar, para que escutem minha voz e se forma um só rebanho com um só pastor”. Bem. Ovelha e pastor são as palavras-chave das leituras e, por isso, vou deter-me um pouco nelas. As ovelhas, antes de mais nada, fazem parte de um conjunto lexical que inclui bode, cabra, cabrito, carneio, cordeiro, ovelha. O bode é o macho da cabra, ambos mamíferos ruminantes bovídeos, com chifres ocos ou cavicórneos, e o cabrito é o bode pequeno. O carneiro é o macho da ovelha. O cordeiro é o carneiro ainda novo. No Novo Testamente, Jesus é chamado “cordeiro de Deus” (João, 1: 36). Em Mateus (25: 32 e 33), no julgamento das nações, Jesus separa os bons dos maus, “como um pas-tor separa as ovelhas das cabras, colocando as ovelhas à sua direita e às cabras à sua esquuerda. Youngblood (2004, p. 71) dá o motivo dessa distinção: “Ao contrário de suas parentes amáveis e indefesas [= as ovelhas], as cabras são animais curiosos, inde-pendentes e teimosos. Os autores bíblicos geralmente referiam-se aos líderes irrespon-sáveis usando a figura do bode [macho da cabra]”. Assim, pela boca do profeta Zacari-as, o Senhor expressa desta forma a sua indignação: “Contra os pastores se acende mi-nha cólera, / pedirei conta aos bodes” (10: 3). De mais a mais, as ovelhas, ao contrário das cabras e dos bodes, são pouco inteligentes, incapazes de encontrar o caminho de casa, razão por que, no salmo 31: 8, o Senhor pro-mete: “Eu te aconselharei, fixarei em ti meus olhos”. Tanto no bom quanto no mau sen-tido, isso é interpretável como uma referência aos fiéis e ao rebanho [judaico e cristão]. Como reforço, o salmo 3: 8 reza: “Guiavas teu povo como um rebanho / pela mão de Moisés e de Aarão”. Pelas mãos do padre e do bispo, adaptaríamos. Docilidade sem sempre é virtude. Muito menos, subserviência, servilismo e alienação atitudes nada incomuns. Em compensação, as ovelhas vetero e neotestamentárias oferecem vestuário, leite, man-teiga, queijo, carne. Ainda por cima, se alimentam parcimoniosamente nem que seja de erva rala. Real e figuradamente. Isto sobre a ovelha. Sobre o pastor, há de se notar que o título é para Deus, como no salmo 79: “Pastor de Israel, escuta, / tu que guias José como um rebanho. [...] Ó Deus, restaura-nos. [...] Senhor Deus dos exércitos, até quando te envolverás em fumaça?” (79: 2 a 5). Ezequiel: “Pastores, isto diz o Senhor; / [...] Eu as apascentarei em ótimas pastagens, / terão [as ovelhas] seus prados / nos mais altos montes de Israel; / aí deitarão em férteis pastagens / e pastarão pastos suculentos / nos montes de Israel” (34: 1 e 14). No cristianismo, para além do judaísmo, Jesus é “o bom pastor [encarnado] que “dá sua vida pelas ovelhas (João, 10: 11). São-no, por igual, os líderes das Igrejas cristãs, con-forme Efésios (4: 11): “A uns ele nomeou apóstolos, a outros profetas, evangelistas, pastores e mestres, para a formação dos consagrados na obra confiada para construir o corpo de Cristo”. Em terminologia atual: papa, bispos, presbíteros, diáconos... Os pro-testantes denominam seus ministros de pastores. Os neopentecostais, idem. Se olharmos para o Antigo Testamento, veremos que Abel “era pastor de ovelhas”, ao passo que Caim “era lavrador” (Gênesis, 4: 2) – um reflexo da inimizade que, então, devido às circunstâncias [muito pasto, reles embora, em boa parte; pouca terra arável], reinava entre camponeses e pastores, primeiro porque a terra palestina não se prestava à agricultura e, segundo, porque os agricultores cultuavam deuses de fertilidade. Por ra-zões econômicas, o conflito continua, hoje, no Brasil, na Amazônia e noutras paragens, entre pecuaristas e cultivadores das regiões agriculturáveis. Ainda na linha do pastoreio, cuidavam de ovelhas e assemelhados os filhos de Abraão, Isaque e Jacó (Gênesis, 13: 7; 26: 20; 30: 36); Raquel, esposa de Jacó (29: 9); Moisés (Êxodo, 3: 1), Davi (Salmos, 27: 70 e 71: “O Senhor escolheu Davi, seu servo, / tirando-o dos apriscos do rebanho; / de ir atrás das ovelhas o levou / a pastorear Jacó, seu povo, / Israel, sua herança”); Amós [1: 1): “Amós, um dos vaqueiros de Técua”]... Realizado esse pequeno sobrevôo bíblico, retornemos às leituras do décimo sexto do-mingo. Contexto Jeremias (23: 1 a 6) insere-se nos discursos do livro jeremíaco, havendo, nele, a par de peças retóricas, oráculos [declarações de caráter profético, respeitantes à realidade pre-sente, interpretada à luz der Deus] e textos narrativos. O profeta viveu entre 650 e 580 aC, no olho de um furacão envolvendo judeus, assírios, egípcios e babilônios e culminando com a queda de Jerusalém e o desterro de Jeremias para o Egito. Um dos marcantes temas teológicos de sua pregação é a necessidade de o povo de Israel firmar uma nova aliança com Deus: “Vede, chegam dias – oráculo do Senhor – / em que farei uma aliança nova / com Israel e com Judá” (31: 31). O salmo 22 insere-se entre os que a Bíblia da CNBB (2001, p. 722) classifica como de confiança, ‘crença na probidade moral, na sinceridade afetiva, nas qualidades profissio-nais de outrem’ (Houaiss, 2001). Como, aqui, “o Senhor é o meu pastor” (22: 1), multi-pliquem-se os substantivos abstratos da definição dicionária por infinitos mil. Dois per-sonagens se alternam no salmo: o pastor (versículos 1 a 4) e o anfitrião/ hospedeiro (5 e 6). Efésios, é, na passagem dos anos 50 para os 60 dC, uma carta circular pseudopaulina, de duas partes: a primeira doutrinal [vocação e redenção cristãs, salvação dos gentios, mi-nistério de Paulo: “A mim, o último dos consagrados, foi concedida esta graça: anunciar aos pagãos a boa notícia”, 3: 38] (1: 3 a 3: 21) e, a segunda, moral [como a de ser amá-vel e compassivo e perdoar-se mutuamente] (4: 1 a 6: 20). Efésios (2: 13 a 18), em especial, discorre sobre judeus e não-judeus unidos em Cristo: “Agora, graças a Cristo Jesus e em virtude do seu sangue, vós, que antes estáveis longe, agora estais perto” (2: 13). A referência ao sangue [de Cristo] como elo de ligação entre o distante gentio e o descendente de Abraão próximo, preconizada por Isaías (57: 19), soa estranha a ouvidos modernos: o que, na realidade, redime e liga é o cumprimento da vontade divina: “Cumpra-se o teu desígnio na terra como no céu” (Mateus, 6: 10). Marcos (6: 30 a 34) refere que, depois de sua missão, os doze apóstolos se reuniram com Jesus e foram convidados por ele a se retirarem, de barco, a um lugar solitário. Lá, no entanto, a multidão de sempre os aguardava, e Jesus teve compaixão dela. Texto Em Jeremias (3: 1 a 6), o Senhor (1) dirige ameaças: “Ai dos pastores que dispersam e extraviam / as ovelhas do meu rebanho”. Contra quem é essa minaz advertência? Se eu não temesse o estigma de anti-clerical, diria que é contra o mau exemplo, a ignorância e a prepotência de grande nú-mero de eclesiásticos; (2) promete: “Eu mesmo reunirei o resto de minhas ovelhas em todos os países para onde as expulsei [através de meus representantes índigos?], / eu as trarei de volta aos seus pastos, / para que cresçam e se multipliquem. / Eu lhes darei pastores que as pasto-reiem” [com seu comportamento, com sua sabedoria, com sua humanidade]. No salmo 11, dois quadros se justapõem: o do pastor/ Pastor, que leva a “verdes pra-dos”, “fontes tranqüilas”, “sendas oportunas/ bons caminhos” e até a “vales escuros”, nada temíveis, pois “vais comigo”, com teu bastão e teu cajado (22: 2, 3 e 4). Ao térmi-no da caminhada, “pões diante de mim uma mesa” [numa casa, num templo, ao ar li-vre]. “Com perfume, me unges a cabeça [como fazendo festa e demonstrando agrado], minha taça transborda” (22: 5). Como já observei no pré-texto, em Efésios (2: 13 a 18), não há nenhuma alusão a pas-tor e ovelhas, porém o versículo 14, ainda que em sua construção arrevesada – “Ele é a nossa paz, ele que de dois fez um [judeus e pagãos], derrubando com seu corpo o muro divisório, a hostilidade, anulando a lei com seus preceitos e cláusulas, criando, assim, em sua pessoa, de duas uma só e nova humanidade, fazendo as pazes” (2: 14 e 15) –, lembra João (10: 16): Tenho outras ovelhas que não pertencem a esse redil; a essas te-nho que guiar, para que escutem a minha voz e se forme um só rebanho e um só pastor”. Marcos (6: 10 a 12) descreve a volta dos doze ao convívio de Jesus, depois de uma tur-nê deles, ou melhor, missão “para proclamar o reinado de Deus e curar enfermos” (Lu-cas, 9: 2). Não consta exatamente aonde foram, a não ser que às aldeias do entorno, nem por quanto tempo. Voltavam, naturalmente, cansados e cheios de novidades. Jesus pro-põe-lhes um descanso. “Vinde vós [não o povoléu que se apinhava em torno deles], so-zinhos, a um lugar despovoado, para descansar um pouco” (6: 31). Tomam um barco [João, 6: 1, informa que foi no lago da Galiléia/ Genesaré/ Tiberíades]. “E assim foram sozinhos de barca a um lugar despovoado. Mas muitos os viram partir e se deram conta. De todos os povoados, foram correndo a pé até lá e chegaram antes deles. Ao desem-barcar, [Jesus] viu uma grande multidão e sentiu pena, porque eram como ovelhas sem pastor” (Marcos, 6: 31 a 34). Lucas (9: 10) especifica que esse lugar despovoado de Marcos ficava em Betsaida, nordeste do lago. Remaram, pois, se meu sentido geográfi-co não se engana, do noroeste para o nordeste. Há, portanto, na narrativa, uma seqüência de sensações: cansaço, refúgio, compaixão. A cena se funde com Jeremias, 23, com o salmo 22 e com Efésios, sobretudo quando o pastor, no salmo, faz as ovelhas repousar em verdes prados (22: 2) e Jesus, em João (10: 16), declara que ainda tem “outras ovelhas”. A exposição subseqüente, em que Jesus dá de comer a cinco mil pessoas, não pertencen-te à leitura deste domingo, ilustra, mais uma vez, o versículo 2 do salmo 22: “O Senhor restaura minhas forças” e o 3 de Jeremias, 23: “Eu trarei de volta [minhas ovelhas] a seus pastos, / para que cresçam e se multipliquem”. Pós-texto As leituras deste décimo sexto domingo do tempo comum são dedicadas aos bons pasto-res, aos passtores bons, seja com pê minúsculo, seja com pê maiúsculo: Deus, Cristo, autoridades eclesiásticas e civis, grandes e pequenas, pais: “Ai dos pastores que disper-sam e extraviam / as ovelhas do meu rebanho” admoesta o Senhor em Jeremias (23: 1), referindo-se a quem? Nas demais perícopes – salmo 22, Efésios, 2 e Marcos, 9 – ele, Jesus, se volta mais a si mesmo e ao seu bom coração pastoreador. A nós, cristãos co-muns, ovinocristãos, cabe ser menos bovinocristãos [mansos, lentos, servis] e mais so-lertes, conscientes, empenhados. Taurinocristãos, quem sabe. Ou caprinocristãos
criado por laurodick    13:03 — Filed under: Sem categoria
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